sábado, 9 de dezembro de 2017

Ganhei o dia

Eis que a sola do meu sapato se descola dentro do metrô. Sigo até o meu destino na esperança de comprar um Super Bonder e resolver o problema.

Colei. Não deu certo. 

Um morador de rua, daqueles que a gente olha, mas não enxerga, oferece ajuda. Desconfio, mas compro outro tubinho da cola. Ele me leva até uma sombra e me apresenta aos amigos dele. Cola meu sapato pacientemente enquanto conversa comigo. 

Sim, tive muito receio. Mais ainda quando pensei que deveria retribuir. 

No final, agradeço e pergunto como posso ajudar. Dessa vez o receio foi pela resposta. Ele para por alguns segundos e dispara: "Não preciso de ajuda, não. Você agradeceu de coração e isso pra mim já tá bom. Agora adiante seu lado e não pise em poça d'água".

Ganhei um aperto de mão e um abraço forte. Ganhei um peso na consciência pelo medo que senti. 

Depois? Depois o sapato descolou de novo. Mas agora isso foi um detalhe. 

Ganhei o dia.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Tempo

Assim como uma série de ideias que colocam na nossa cabeça desde que a gente começa a ter noção do que somos no mundo, falam sobre o tempo.

O dia com 24 horas, o mês com 31 dias, o ano com 12 meses. Mas quem inventou a medida do tempo?

De onde será que surgiu a ideia de que, por exemplo, durante o dia temos que fazer certas coisas ao acordar e outras pouco antes de dormir?

Ou de que temos até determinado momento na vida para tomar decisões, fazer escolhas, seguir caminhos.

Estranho...

Não que não devemos agir ou viver somente à sorte dos acontecimentos.

Eu me refiro a viver com menos pressa, a entender o nosso próprio tempo ao invés do tempo dos outros ou do tempo que os outros dizem que as coisas tem.

Quando a gente respeita o nosso próprio tempo, a cabeça pensa com calma, reflete, entende, compreende, aceita. E aí age! E aí determina! E aí faz acontecer!

Quando é assim, inclusive, o acontecer dá certo. Porque dentro da gente, genuinamente, de fato queremos, dedicamos energia a fazer acontecer. Então a busca fica mais intensa, mais forte, incansável.

Se a ação é determinada pelo tempo dos outros, dos externos, a gente tenta, tenta, corre, luta, se desgasta, sofre, se dói, se machuca. E até acaba conseguindo. Mas a diferença é que nesse caso, lá dentro do peito a sensação da conquista não é forte. Não condiz com a realidade. "Como é que vc não tá feliz?".

Respeitar o nosso próprio tempo. O tempo! O tempo? O tempo é o nosso coração, a nossa intuição, a nossa vontade que vem da alma. Respeitar o nosso próprio tempo é respeitar a nós mesmos.

sábado, 25 de junho de 2016

Mistério sempre há de pintar por aí...

Temas exotéricos chamam minha atenção a ponto de me fazer levar horas lendo sobre astrologia, numerologia e tendo conversas que parecem não ter fim com amigos que têm o mesmo interesse no assunto. No final de 2014 uma amiga tomou coragem pra se consultar com uma taróloga/medium e acabou me levando junto. A conversa durou uma hora, mas me deixou num estado de inquietação tão forte que eu me dividia entre achar tudo aquilo interessante e ao mesmo tempo assustador. 

Cheguei com uma vontade grande de entender como aquilo tudo funcionava, mas muito desconfiado (mania de jornalista). Qualquer defesa que eu tinha foi derrubada nos primeiros dez minutos de conversa. Ela descreveu o meu momento presente com uma precisão que me deixou sem reação. Também ouvi toda a minha personalidade, o meu jeito de ser e de encarar as situações ser apresentado a mim. Era como se eu estivesse conversando comigo. 

A segunda parte da conversa parecia querer atestar de uma vez por todas que aquilo tudo não podia ser questionado. Isso porque assuntos do meu passado foram levantados. Não só experiências, mas sensações, emoções e tudo o que me passou na cabeça à época de certos acontecimentos. Até a forma como estes eventos moldavam o meu comportamento atual foi falada. Impressionante.

Os últimos minutos da conversa serviram para falar sobre o futuro. A médio ou longo prazo, não dava pra não ver verdade em tudo aquilo diante do que me foi apresentado no início daquela consulta.

Saí de lá refletindo sobre toda a minha vida e procurando seguir os conselhos que todas as situações que eu passei e estava passando queriam me dar sem que eu percebesse. 

Depois deste primeiro contato, cheguei a ir mais duas vezes conversar com ela, que se tornou uma pessoa por quem tenho grande carinho, admiração, respeito e tenho como uma conselheira espiritual.

Mas toda essa experiência, tanto com ela quanto com outra taróloga que visitei no fim do ano passado me fizeram chegar à conclusão de que quando se trata de futuro, a interpretação que levamos para casa deve ser cuidadosa. Até porque a existência do livre arbítrio faz com que a vida tome rumos fora do que estava programado. Aprendi que quando se trata de futuro essas previsões são tendências. Na verdade isso foi algo que ela mesma chegou a me avisar. 

É importante que haja essa essa consciência para que evitemos expectativas criadas da forma incorreta e no momento inapropriado. Sendo mais didático, se há, por exemplo (por exemplo!), uma tendência de que há alguém por perto lhe prejudicando em algum campo social ou profissional da sua vida, isso não significa que aquele amigo mais próximo ou colega mais chegado é essa pessoa. Muito menos de que essa pessoa é aquele conhecido com quem você teve uma rusga recentemente, há muito tempo ou até aquele ex amigo (ou inimigo).

Acredito que há muitos impostores nesse meio, mas definitivamente existe quem tenha essa dom. Essas pessoas são especiais e merecem uma chance de mostrar para nós um pouco de quem nós somos e do que foram as nossas experiências muito além do que as nossas rasas interpretações conseguem absorver.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Fuga

Sempre gostei muito de dormir. Não consigo ver sentido em dizer que dormir muito é perda de tempo. Não consigo achar interessante viver perdendo noite aproveitando as supostas possibilidades infinitas dos acasos da vida.

Nos finais de semana e feriados eu durmo até não conseguir mais ficar na cama. Até perder o sono por fome ou por dor no corpo depois de tanto tempo deitado. Mas durante a semana é diferente independente de estar trabalhando e ter obrigação com o relógio.

Há algum tempo dormir virou uma fuga. Quando estou ansioso ou triste, separo um momento do dia para tirar um longo cochilo. Ou então deito mais cedo que o de costume e só levanto no dia seguinte.

Percebi que funciona como uma espécie de anestésico contra ansiedade já que faz o tempo passar rápido e o que está por vir chegar mais depressa.

Mas o termo fuga faz mais sentido quando se trata de tristeza. Tenho certa facilidade para sonhar. Na verdade não sei se facilidade seria a palavra mais apropriada. Mas mesmo com a maior das trisetzas, um sono raramente me leva a ter pesadelos. Pelo contrário, dou início ao ritual de dormir pensando no que me entristece, nas possibilidades e insisto em ser otimista involuntariamente.

A minha ideia de que sonhar não custa nada e que só eu vou saber a história que vai se passar em minha cabeça me faz deixar a imaginação fazer o passeio que ela quiser. Acabo pegando no sono assim. Raramente sonho com o que fiquei imaginando, mas tenho um bom sono e um bom sonho.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Saudade sem cura

Há exatamente seis meses estava eu saindo de Toronto para voltar à Salvador depois de um intercâmbio que aconteceu durante todo o primeiro semestre de 2014. Daqui a uma semana faz um ano que eu saí daqui para chegar naquela terra gelada e que nos primeiros dias me fez pensar se eu realmente queria ficar tanto tempo longe de casa. À época nem passava pela minha cabeça que Toronto também ia virar na essência a minha casa e que sair de lá ia ser mais doloroso que deixar Salvador.

Só fui assimilar a ideia de que estava deixando o Canadá quando saí com duas malas pesadas da casa em que eu estava morando. Fiquei muito sentido ao longo do caminho no metrô. A cada estação eu lembrava de algum episódio dessa que foi a minha mais incrível aventura. Foi uma espécie de retrospectiva de tudo de melhor que eu vivi naquela cidade maravilhosa. 

Vista da CN Tower
No aeroporto eu acabei me distraindo porque encontrei um amigo que vinha no mesmo voo que eu. O momento realmente difícil foi quando o avião começou a andar pela pista do Pearson Airport. Foi surgindo uma vontade tão grande de ficar... Mais forte até do que a que eu vinha sentindo há um mês. O frio na barriga foi se misturando com a tensão que eu sinto nos primeiros minutos à bordo de um avião prestes a levantar voo. A saudade foi crescendo na mesma velocidade em que a aeronave alcançava o céu. A cidade do alto, à noite e enfeitada por milhares de luzes foi a última imagem que eu tive de lá.

Vindo de São Paulo para Salvador, a primeira cena foi do bairro do Rio Vermelho. Mais precisamente a orla na região do hotel Pestana Bahia. Tenho um carinho grande pelo Rio Vermelho porque morei lá por um bom tempo. Apesar de ser uma das muitas regiões de Salvador que eu amo, naquele momento ver o bairro não foi tão interessante. Na verdade era tudo o que eu não queria ver. Mas tava consumado. Voltei pra Salvador! 

Cheguei meio sem reação. Não estava exatamente triste, mas ao mesmo tempo estava longe de sentir felicidade. Fui observando cada ponto da cidade no caminho entre o aeroporto e a minha casa. E estranhei a casa, o meu quarto... Não dormi bem nas primeiras noites, fiquei me sentindo um estranho e até meio deslocado. E olhe que foram só seis meses!

Tudo me incomodava bastante por aqui. Da infraestrutura da cidade ao comportamento das pessoas. Não que eu imaginasse que em seis meses eu iria encontrar uma Salvador perfeita. Mas acabou sendo um choque já que eu estava recém adaptado a uma nova realidade.

Distillery District: cenário de um dia especial
Só depois de alguns meses é que fui olhar as fotos que tirei em Toronto e ler os textos aqui do blog. Ainda sinto muita falta dos lugares que visitei por lá, dos que eu frequentava, da casa em que eu morava, de cada situação boa ou ruim com a qual eu me deparava, da liberdade que eu tinha, de quem eu deixei, da comida da minha mãe canadense, do gato que morava comigo e até do frio.

Fui aprendendo que o melhor remédio para a saudade se chama tempo. Mas tem dias em que essa saudade fala mais alto e aí o melhor mesmo é deixar ela gritar o quanto e no tom que quiser. Depois ela se acalma e volta a ficar mansa. Ir embora ela não vai. E que bom que não vai! Vivi tantas alegrias naquela época que não quero (e nem posso!) esquecer.

O engraçado é que com esse começo de 2015 tudo que eu vivi por lá vai começar a completar um ano. E essa lembrança vai fazendo a saudade parecer mais forte. Mas penso em visitar Toronto. Só não sei quando... Conheço boa parte da cidade e a ligação afetiva que criei com ela vai ser eterna. Mesmo que eu faça outros e até mais longos intercâmbios, esse no Canadá sempre vai ser especial. Até passar por essa experiência eu nem cogitava possibilidade de deixar o Brasil. Mas como uma amiga me disse pouco depois de eu voltar: uma vez que a cabeça da gente se abre pro mundo, não tem mais volta.

"E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar
Não tem tempo
Nem piedade
E nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda a nossa vida
E depois convida a rir ou chorar"
(Toquinho e Vinícius de Moraes).

Imagens: Arquivo pessoal

sábado, 12 de julho de 2014

''Tempo rei''

Distillery District
Engraçado como o tempo faz verdadeiros milagres na vida da gente, na nossa cabeça e no nosso coração. Há exatos cinco meses e dezesseis dias eu desembarquei em Toronto para dar início a um intercâmbio. Sou jovem, tenho 22 anos, e havia acabado de concluir a minha graduação. Ou seja, como muita gente me disse antes da viagem, eu escolhi a época certa para viver essa experiência. Já pensava em fazer intercâmbio antes mesmo de entrar na faculdade. Ao longo do tempo fui conversando sobre a ideia com meus pais e aí com cerca de um ano de antecedência comecei de fato a me preparar para a viagem.

Até então eu nunca tinha ficado mais de quinze dias longe de casa ou feito uma viagem internacional. Como a vida inteira ouvi de muita gente que eu era maduro e que tinha uma cabeça de uma pessoa mais velha, cheguei a ter a pretensão de imaginar que ficar longe de tudo por esse tempo não seria um grande desafio pra mim. Doce ilusão... No meu primeiro dia em Toronto a sensação de solidão me apavorou e fez com que eu me sentisse um grão de areia, além da impressão de que esses quase seis meses de intercâmbio seriam uma eternidade.

Sair da cidade onde sempre vivi para chegar em uma outra tão diferente, e na época tão fria, era encantador mas ao mesmo tempo me assustava. Não há nada em Toronto que faça referência a qualquer lugar do Brasil. É uma realidade completamente diferente. Mas o mais complicado mesmo foi perceber que o contato mais próximo que eu conseguiria ter com a minha família e com os meus amigos seria via Skype. A mudança foi muito brusca pra mim. Poucas semanas antes de viajar eu estava preparando a apresentação do meu trabalho de conclusão de curso pela manhã, trabalhando à tarde, fazendo um curso à noite, vendo minha família todos os dias e os meus amigos em todos os finais de semana. Sem falar que eu saí do Brasil no final de janeiro, auge do verão.

Tudo naquela terra até então nova me parecia muito estranho o tempo todo. Fora um amigo meu que mora em Toronto há alguns anos, eu não conhecia mais ninguém na cidade. Não sabia andar nas ruas, tinha que olhar o mapa pra poder pegar o ônibus certo pra voltar pra casa, morava com uma pessoa que eu nunca tinha visto na vida, não ouvia português em lugar nenhum e ainda tentava trabalhar a minha cabeça para não pirar em meio a aquele frio que não passava.

Eu costumo dizer que levei cerca de 15 dias para chegar em Toronto. Isso porque nessas duas primeiras semanas eu não tinha vontade de fazer nada. A tristeza e a saudade eram muito grandes. Cheguei até a achar que ficar longe até julho era demais, desnecessário.

Passada essa fase de tristeza e melancolia, Toronto foi pouco a pouco me ganhando. Fui começando a conhecer a cidade, conhecer gente, a me apegar e a me apaixonar por aquela nova realidade. Foi uma paixão que surgiu tão avassaladora que assim que eu completei dois meses de intercâmbio conversei com meus pais sobre a possibilidade de ficar mais tempo. Queria ficar mais seis meses pra poder fechar um ano de intercâmbio. Estudamos todas as possibilidades, mas não deu. Fiquei e ainda estou muito sentido, mas não triste porque viajei à princípio com o pensamento de ficar até julho. Antes mesmo de sair de Salvador eu já sabia que se resolvesse ficar mais tempo fora, essa seria uma possibilidade remota.

Acho que o que mais vai me fazer sentir falta de Toronto é a liberdade e a sensação de segurança. Não tem coisa melhor do que você viver em um país extremamente civilizado como é o Canadá. Fora o fato de não haver grandes problemas com criminalidade e mobilidade urbana. Qualquer um se encantaria. 

Ainda não sei dizer o que foi melhor nessa experiência toda. Vivi tanta coisa por aqui. A sensação é de que vivi vários anos em um só. Cheguei aqui de um jeito e saio de outro. A melhora no inglês pra mim foi o mínimo que eu pude ganhar. Acho que o melhor mesmo foi o amadurecimento. Hoje eu me conheço muito mais do que antes. Eu olho pro meu umbigo e percebo claramente quais são os meus maiores defeitos e as minhas maiores qualidades. Hoje me vejo com mais certeza da importância que muita gente tem na minha vida. Sem falar que, como já disse em outra postagem, passei a olhar o espelho de forma diferente. Precisei ficar tão longe, por tanto tempo, vivendo uma vida tão diferente da que eu sempre tive para poder me conhecer, me enxergar e ter certeza de quem eu sou de verdade, do que eu quero pra mim e do que me faz bem. Abri minha cabeça pro mundo. Me sinto mais corajoso e menos ansioso. Meus sonhos se tornaram mais claros pra mim porque aprendi a andar com os pés mais firmes no chão.

A tarefa agora é começar e recomeçar a vida no meu país. Continuo querendo muita coisa e espero que esse segundo semestre seja tão ou mais valioso do que já foi o primeiro. Mas independente disso, 2014 definitivamente já se tornou o melhor ano da minha vida. E essa experiência é sem dúvida a mais linda e intensa que eu já tive.

Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O canadense

A gente sempre ouve dizer que o Brasil tem a fama de ter um povo hospitaleiro, simpático e que sabe receber bem o turista. Com todos os holofotes do planeta voltados para o país em função da Copa, essa imagem foi reforçada para o mundo inteiro. Basta assistir a qualquer vídeo na internet que apresenta o país ou as cidades sede dos jogos que dá pra perceber claramente que essa energia do brasileiro é apresentada quase que como mais uma atração turística. Não sei como são os outros povos ao redor do mundo, mas desde o meu primeiro dia em Toronto já pude sentir o quanto que o canadense é educado, solícito e agradável.

Ao desembarcar fiquei sem saber para que lado ia porque o aeroporto internacional de Toronto é muito grande. Quase um labirinto. Meu amigo acabou demorando um pouco para ir me buscar. Até saber do paradeiro dele eu pedi informação sobre a saída do aeroporto a alguns funcionários que me trataram muito bem. E olhe que nessa época eu falava muito pouco em inglês. Depois fui pedir informação a uma mulher que havia chegado ao aeroporto e aí no meio da conversa ela ofereceu o seu celular para que eu pudesse enviar uma mensagem a esse meu amigo que ainda não havia chegado. Foi uma primeira impressão muito boa que eu tive dos canadenses só nesse primeiro momento ao chegar em Toronto.

Como eu já disse em outras postagens, me perdi muitas vezes andando pelas ruas da cidade. Em todas essas situações, que vez ou outra ainda se repetem, eu acabava indo pedir informação às pessoas. Sempre me orientavam muito bem. Uma vez ao sair de um shopping eu errei o caminho para a estação de metrô. Já era noite e nevava bastante. Eu estava carregando sacolas e morrendo de frio. Pedi ajuda a um casal e eles foram tão gentis que praticamente me levaram até a entrada da estação para ter certeza de que eu não viria a me perder novamente.

Engraçado que antes de vir para cá, quando alguém se aproximava de mim para pedir uma informação a primeira reação que eu tinha era de susto. Aqui quando você se aproxima de alguém para perguntar algo, basta começar com um pedido de licença que a pessoa te dá toda a atenção do mundo. E o melhor, essa atenção vem acompanhada de simpatia.

Com o tempo eu fui aprendendo por aqui algumas regras básicas de convivência. Por exemplo, aqui as pessoas não tem o hábito de se cumprimentarem com beijo no rosto e/ou abraço. Normalmente fica apenas em um aceno ou um balançar de cabeça com um sorriso. Abraço é só quando há muita intimidade. Muito canadense cumprimenta com abraço, mas na dúvida eu prefiro sempre optar por um aperto de mão. Mas se eu vejo que a pessoa faz menção a um abraço, lógico que eu não recuso. Inclusive, no começo eu até senti um pouco de falta dessa coisa que a gente tem de se tocar ao se cumprimentar para dizer um ''olá'' ou um ''até logo''. Somos mais afetivos nesse sentido.

Lembro que no dia do meu aniversário, quando a minha ''mãe'' me desejou parabéns, me deu um bolo e um presente, eu fiquei numa dúvida cruel se deveria ou não dar um abraço. Nessa dúvida eu preferi apenas agradecer bastante. Um tempo depois ouvi de um amigo canadense que nesse caso eu podia ter dado um abraço. rs

Outras regras básicas por aqui são: tirar os sapatos ao entrar na casa das pessoas; sempre dar gorjeta; sempre deixar o lado esquerdo da escada rolante livre (muita gente não sabe, mas isso é regra em qualquer lugar! Ou deveria ser...); só entrar nos veículos de transporte público após as pessoas que pediram o ponto saírem; sempre sinalizar no bonde ou no ônibus que você deseja descer na próxima parada; não demorar no banho por mais que com o tempo frio a água quente esteja irresistível; pontualidade (sempre!); não falar o seu idioma de origem em uma roda de amigos em que tenha gente que não entenda, ainda que dez falem português e só um fale inglês; e para quem mora em homestay é de bom tom jantar com a família; ainda em homestay, não pega bem usar o celular à mesa.

Não vou citar os pontos ruins porque acho que não vai ser legal. Mas nem tudo são flores, afinal, gente mal educada e ignorante existe em qualquer lugar.

Namoro

Algumas pessoas já me perguntaram quanto a dar início a relacionamento com gente de fora em meio a um intercâmbio. Bom, acho bobagem viajar pensando em ter essa experiência. Quando as coisas acontecem naturalmente tudo é muito melhor. Pra mim, desde que a pessoa não esqueça de que saiu do seu país para viver por alguns meses fora tendo como foco os estudos, tudo é permitido. Inclusive, por se tratar de um relacionamento entre pessoas que tem culturas completamente diferentes, as coisas se tornam ainda mais interessantes. Uma das boas consequências disso é que o inglês acaba tendo uma melhora muito grande. O que não pode é querer fantasiar demais a eternidade da relação. Isso porque ela já começa tendo um prazo máximo para acabar. Ou talvez não, caso você queira jogar tudo para o alto em nome do sentimento que surgiu disso tudo. rs. Quem sabe...

Imagens: http://instagram.com/arturqzz