domingo, 23 de dezembro de 2012

A verdade de quem é invisível

Acabei de assistir à segunda edição do Coral de Rua, programa que faz parte da grade de fim de ano da TV Record. O programa é dirigido e apresentado por Marco Camargo, produtor musical, compositor e um dos jurados do reality musical Ídolos. A ideia do Coral de Rua é reunir moradores de rua da cidade de São Paulo para que eles possam formar um grande coral, que se apresenta em um teatro diante de seus familiares e dos funcionários da Rede Record.

Não assisti a primeira edição, exibida no ano passado, mas hoje, procurando algo de interessante na TV, acabei me deparando com o programa e resolvi conferir. Em poucos minutos minha atenção ficou totalmente voltada para a televisão e eu acompanhei o programa todo. Não mudei de canal nem na hora do intervalo.

O que chamou tanto a minha atenção foi a seleção dos cantores. Marco Camargo ia abordando os moradores de rua que ia encontrando pela cidade de São Paulo e a conversa acontecia como quem não queria nada. Era um bate papo que ia se desenrolando até que surgisse o momento oportuno de fazer o convite para participar do programa. O interessante em tudo isso é que todo o receio que aquelas pessoas sentiam ao ver a câmera da emissora acabava depois de poucas perguntas feitas pelo Marco.

Não preciso nem dizer que a apresentação no teatro foi emocionante. Mas depois de assistir o Coral de Rua lembrei um documentário que produzi no segundo semestre da faculdade com mais quatro colegas sobre a realidade de quem vive na periferia de Salvador. Para fazer as gravações nós percorremos uma região da cidade conhecida como Calafate, que fica próximo ao bairro do IAPI. Nós conversamos com um líder comunitário, que foi quem nos acompanhou durante todo o percurso, com um senhor que já viva lá há muitos anos, com alguns jovens e com o traficante da região. 

Entrar no Calafate foi o primeiro desafio por ser um lugar totalmente diferente da realidade em que eu vivo. Só via lugares como aquele nos cinemas... Mas o maior desafio de todos foi entrevistar o traficante. Nós chegamos lá com medo, olhando para todos os lados e medindo cada gesto que a gente fazia e cada palavra que a gente dizia. A tensão era tão grande que ele percebeu o nosso receio e falou: "Não precisa ter medo porque ninguém aqui é bicho!". Antes de gravar nós conversamos bastante e conseguimos ganhar a confiança dele, que estava com duas armas na cintura. O nosso medo já não era tão grande e o papo já fluía com mais naturalidade.

É lógico que quando ouço falar de um traficante me sinto completamente diferente dele, mas naquele momento da entrevista eu conseguia me sentir igual. Igual porque conseguia conversar com ele numa boa, olhar nos olhos, entender a vida que ele leva e os motivos que o levaram a viver desta forma.

Ele me contou que era ex-presidiário e que logo após cumprir a pena foi atrás de emprego. Nas entrevistas as pessoas até gostavam dele, mas quando viam que se tratava de alguém que já havia sido preso qualquer possibilidade de contratação acabava. E foi justamente o fato de ver tantas portas se fecharem que fez com que ele se tornasse um traficante, segundo conta.

É muito difícil ter um contato tão direto com essas pessoas e não conseguir ver perspectiva nenhuma de futuro para elas. É triste ver seu semelhante vivendo com tanta dificuldade, sem ter sequer a chance de sonhar com uma realidade diferente. E é a partir de exemplos como o do traficante e dos moradores de rua do Coral de Rua que eu entendo que definitivamente não há clichê em dizer que vivemos em mundo cruel... Igualdade social é algo que nunca existiu e nunca vai existir.

Segue o documentário que eu citei no texto:


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A tal da dona privacidade

O internauta entra no Facebook e dá de cara com postagens de pessoas que não querem ter a sua intimidade exposta. São textos que explicam de que forma você deve contribuir para que as atualizações dela não acabem indo parar na tela de algum desconhecido. E aí te falam para clicar aqui, clicar ali... Tudo para preservar a tal privacidade.

Em alguns casos as postagens são como uma espécie de aviso ao 'senhor Facebook', em que fica bem claro que aquelas informações pessoais não devem ser compartilhadas de forma alguma com qualquer outro meio que não seja o próprio site.

A partir do momento em que a pessoa se cadastra em uma mídia social e lá divulga informações pessoais, fotos etc. ela está automaticamente abrindo mão dessa privacidade. Quando você adiciona alguém, esse alguém vai saber seu nome, sobrenome, onde você nasceu, onde mora, onde estudou, onde trabalha, quem são seus amigos, parentes, namorada etc. 

Na época em que o Orkut era a grande febre na internet, as pessoas em um determinado momento começaram a bloquear todas as informações pessoais, só que ao mesmo tempo as comunidades ficavam lá para quem quisesse ver. No caso do meu perfil, quem se deparasse com ele bloqueado ia ter a possibilidade de saber tudo sobre mim através das minhas comunidades, que muitas vezes diziam mais do que o 'formulário' preenchido no perfil. 

O mais curioso de tudo isso é que sempre que começa mais uma edição do Big Brother Brasil, surgem milhares de discursos de que aquilo ali é um absurdo, de que é muita exposição e aí tomam os participantes para Cristo simplesmente pelo fato de terem entrado no programa. Se a gente parar e pensar, fazer parte de uma mídia social é uma como participar de um reality show. Quando fazemos parte dela somos os participantes e os espectadores. Os participantes por estarmos ali abrindo a nossa vida para o mundo, e os espectadores por acompanhar tudo o que se passa na vida das pessoas através das atualizações na nossa página inicial.

Quem se se propõe a estar em sites como o Facebook deve arcar com as consequências disso. O que fica a critério de cada um é ter bom senso o suficiente para saber até que ponto a própria imagem vai ser exposta.

domingo, 10 de junho de 2012

A vida é tão rara...

O Sol da última sexta-feira (8) amanheceu mais triste e com a difícil e injusta missão de fazer nascer o dia em que amigos e parentes iriam ao cemitério Bosque da Paz se despedir do inesquecível e incomparável professor Rafael Mendes, um anjo que esteve entre nós por pouco mais de 30 anos e foi vítima de um aneurisma que resultou em um infarto fulminante.

Rafael foi meu professor em 2007 no extinto colégio PhD, onde eu cursava o 1º ano do ensino médio. A disciplina, Redação, de maneira geral é muito complexa porque faz necessária a dissertação a respeito de temas que muitas vezes não interessam ao estudante. O que era curioso em tudo isso é que independente de gostar da matéria ou não, todos os alunos faziam questão de assistir as aulas de Rafael. Em sala de aula ele atuava como um verdadeiro maestro, utilizando sua técnica, oriunda de sua formação acadêmica, inteligência e experiência, para nos conduzir de maneira espontânea a seguir suas linhas de raciocínio e no final encontrar a harmonia necessária para o triunfo.

Com o fechamento do colégio PhD, boa parte da turma se matriculou no colégio Integral em 2008 para cursar o 2º ano do ensino médio. No formulário que nós tínhamos que preencher para realizar a matrícula, havia uma pergunta sobre qual foi o melhor professor do ano anterior. Eu e todos os meus colegas apontaram Rafael e um pouco mais tarde sugerimos à direção da escola que o contratasse para nos dar aulas de atualidades, filmes e livros para vestibular. Depois de algumas negociações tudo acabou dando certo.

As aulas no colégio Integral eram dadas à tarde e não contavam com avaliações, mas a sala estava sempre lotada! Nós, os novatos, falávamos muito dele antes da confirmação de sua disciplina em nossa grade. Quando ele passou a dar aulas lá nós sentíamos até certo orgulho de ver que todos os alunos que já eram da escola e não o conheciam já tinham se tornado fãs dele.

Um dos pontos que faziam as aulas de Rafael serem sempre especiais era a forma descontraída que ele utilizava para fazer com que a gente se identificasse com determinados conteúdos. Nessa busca, ele conseguia nos fazer refletir sobre nós mesmos, sobre o próximo, sobre o mundo a nossa volta e sobre tudo aquilo que acontece no universo e que nos influencia sem que a gente perceba. Acho que o interessante era justamente isso, ele fazia com que a gente conseguisse estudar a si mesmo antes de estudar os outros conteúdos.

Era interessante também a forma com a qual ele lidava com a gente. A adolescência é uma fase instável e é quando todos os conflitos pessoais vindos do fim da infância e início da vida adulta fazem o jovem criar, entre outras coisas, um ar de superioridade diante de tudo e todos em busca da sonhada independência. A escola é um local onde isso pode ser facilmente identificado. No entanto, em um mundo onde vemos muitos casos de alunos e professores em pé de guerra, Rafael sabia a maneira exata de fazer com que Literatura, Redação, Gramática etc. fossem disciplinas atraentes e com um real sentido em nossas vidas.

A última vez que o vi foi há menos de um ano, quando eu estava no campus de Ondina da UFBA (Universidade Federal da Bahia), num sábado pela manhã. Ao sair do Instituto de Letras eu pude vê-lo sentado na varanda da Facom (Faculdade de Comunicação) com o olhar enérgico, que lhe era peculiar, e ao mesmo tempo distante. Ele parecia estar ali esperando alguma coisa ou só passando o tempo. Ontem (9) eu passei por lá novamente depois de uma prova. Impossível não lembrar aquela cena e sentir o mesmo nó na garganta que sinto enquanto escrevo este texto. Ainda é muito difícil acreditar no que aconteceu...

Tudo isso me faz pensar no quanto que nós, seres vivos, somos frágeis e no quanto que a vida é rara e ao mesmo tempo injusta. Rara porque nós acreditamos que a morte é algo distante, algo que temos a convicção de que vai acontecer, mas só daqui a muitas décadas, quando na verdade corremos o risco de ter a vida interrompida a qualquer momento. E injusta porque ele era um cara jovem, saudável, com uma vida inteira pela frente e com certeza amado pela família, amigos, alunos, colegas e por todos aqueles outros que tiveram a sorte de conhecê-lo.

O susto maior não foi nem pelo fato de ter visto ele há pouco tempo, por ele ser tão jovem ou por eu ter sido seu aluno nestes dois anos de colégio, mas sim porque pessoas especiais e inigualáveis como ele parecem ser imortais. Fico feliz em saber que Rafael Mendes fez parte da minha vida e da vida de milhares de outros estudantes, plantando em cada um de nós lições de tolerância, respeito ao próximo, compaixão, amor e paz.

Descanse em paz, eterno mestre!

domingo, 29 de abril de 2012

Três décadas para celebrar e continuar apontando pro futuro


O show que comemora os 30 anos do Kid Abelha, com transmissão pelo canal Multishow, vai contar com um registro em DVD da apresentação que a banda fez na sexta (27) e sábado (28) no Citibank Hall, no Rio de Janeiro. Acompanhei desde os bastidores até o final, quando o palco já estava vazio e os créditos começaram a subir.

A banda, que estava de “férias” desde 2007, voltou à estrada no ano passado, correu várias cidades do país com a turnê Glitter de Principiante e lançou três músicas (Glitter de Principiante, Veio do Tempo e Caso de Verão).

A abertura contou com um vídeo narrado pela jornalista Mônica Waldvogel fazendo um resumo da história do grupo acompanhada de uma trilha de grandes sucessos. Falando em sucessos, o público fez coro a quase todas as canções. Teve “No seu lugar”, “Por que eu não desisto de você?”, “Garotos”, “Eu tive um sonho”, “Alice” e mais uma infinidade de hits que há três décadas atravessam gerações.

O agradecimento veio com a Paula Toller enfatizando a cumplicidade dos fãs que acompanham a banda desde o primeiro show, feito em 1982 no Rio de Janeiro, quando a crítica dizia que aquilo ali não passava de uma “banda de um só verão”. O agradecimento também foi feito aos que seguem a banda há menos tempo.

As participações especiais ficaram por conta do DJ Marcelinho da Lua e da Bateria “Surdo Um” da Mangueira, responsável pelo grand finale que misturou pop, rock e samba em “Pintura Íntima (Fazer Amor de Madrugada)”.

Eu e o Kid - Comecei a gostar da banda quando eles gravaram o clássico CD/DVD Acústico MTV, em 2003. Ouvi essas músicas tantas vezes que sei até hoje a letra de várias delas de cor.

Em 2005 foi lançado o CD/DVD Pega Vida, um álbum de inéditas e que me fez ter ainda mais afinidade pela banda. Na época eu fiz algumas pesquisas sobre eles para saber, além de sua história, quais eram todos os seus grandes sucessos.

Em 2008, para minha surpresa, eles resolvem fazer uma pausa. Lembro que fiquei um bom tempo acompanhando notícias sobre a Paula Toller e o George Israel para saber se havia alguma previsão de retorno do grupo ou confirmação de que tudo realmente havia acabado.

Em 2011, quando o Kid voltou, eu fui pela primeira vez a um show deles. Todo mundo estava ali matando a saudade e cantando mais da metade do repertório apresentado na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador.

Foi muito bom acompanhar a transmissão feita pelo Multishow porque pude lembrar esse show que eu fui e pude ouvir minhas músicas preferidas. Mas o melhor de tudo foi ver que a banda está com a maturidade de seus 30 anos e com a vitalidade de quem está começando. Que eles continuem atravessando gerações e levantando a bandeira do bom e autêntico pop-rock brasileiro! Vida longa ao Kid Abelha!
Imagem: http://www.google.com.br/imgres?num=10&hl=pt-PT&biw=1024&bih=667&tbm=isch&tbnid=CnWa7anuyl7yKM:&imgrefurl=http://contamais.com.br/festas/banda-kid-abelha-lanca-projeto-multishow-ao-vivo-kid-abelha-30-anos/8427&docid=9gDobRJQrOih1M&imgurl=http://contamais.com.br/upload/imagens_upload/Kid_Abelha_turn.jpg&w=570&h=400&ei=aUZVUOnTBIuy8AT68oAw&zoom=1&iact=hc&vpx=537&vpy=175&dur=300&hovh=188&hovw=268&tx=102&ty=93&sig=113740550972503662996&page=2&tbnh=144&tbnw=206&start=12&ndsp=19&ved=1t:429,r:2,s:12,i:120

domingo, 22 de abril de 2012

Quando a razão vence a hipocrisia


Desde que o Supremo Tribunal Federal liberou o aborto de fetos anencéfalos este assunto se transformou na principal pauta de discussões que correu todo o país. Nos debates que aconteceram nas redes sociais dava pra perceber que a maioria das pessoas era a favor da interrupção da gravidez neste caso. Ao mesmo tempo, durante o voto dos ministros, grupos promoveram uma série de protestos contra.

Em São Paulo, uma mulher de trinta anos e grávida de quatro meses, deu uma entrevista ao site da revistaVeja indignada com o fato de não poder realizar o aborto porque a decisão do STF ainda não havia sido divulgada no Diário Oficial da União.

Na semana em que os ministros estavam para fazer a votação, o Jornal Nacional exibiu uma reportagem com uma estudante de 19 anos que também foi impedida de realizar o procedimento. Só que ela chegou a ter a criança, que morreu logo após o parto, e agora sofria com as complicações que adquiriu.

Uma mãe ter de esperar nove meses para ter seu filho, sabendo de sua má formação, e ele morrer com poucas horas ou minutos de vida pode gerar um grande dano psicológico e até físico a ela. Este tipo de dano também gera risco à saúde dessa mãe. Diante disso, porque essa decisão não foi tomada antes? Por que tem tanta gente achando a legalização um absurdo? 

A decisão final sobre a interrupção de uma gravidez quando o feto é diagnosticado com anencefalia fica por conta da própria mãe. Ou seja, o aborto não será obrigatório, nenhum médico vai impor que aquela vida seja interrompida.

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) desde o início de tudo isso vem se mostrando contra o aborto neste tipo de situação e, por sinal, a maioria das pessoas que não aprovou a determinação do Supremo usa argumentos baseados em ensinamentos da bíblia para justificar sua posição.

Este pensamento "religioso" era um dos fatores que mais dava força para que o assunto nem sequer fosse comentado, mas já que vivemos em um país oficialmente laico, que bom que conseguimos, ao menos desta vez, agir com a razão e não com a hipocrisia. 


A vida agradece!

domingo, 1 de abril de 2012

A música é o melhor remédio


Uma experiência realizada com ratos no Japão e publicada no Journal of Cardiothoracic Surgery provou que a música pode ajudar na recuperação de transplantados. Sobreviveram por mais tempo os animais que ouviram muita ópera após um transplante de coração do que aqueles que ouviram pouca.

Eu costumo ouvir música quando estou a bordo do ônibus (fone de ouvido!), dirigindo, usando o computador, malhando... Não tenho um gosto específico, tenho minhas preferências dentro de quase todos os gêneros. Agora, por exemplo, eu tenho ouvido muito forró e sertanejo por causa desse clima pré São João que já está se instalando. A depender da época ou de como eu esteja, diversifico o que vou botar pra tocar.

Falando nisso, a revista Galileu publicou na edição de abril uma entrevista com o pesquisador Alex Doman, coautor do livro Healing at the Speed of Sound (A cura com a velocidade do som, sem edição brasileira), em que ele afirma que a música tem papel importante no nosso humor, no desenvolvimento do cérebro e, por consequência no nosso sistema imunológico.

Como eu sempre preciso “tirar da cartola” coisas interessantes pra escrever para a faculdade ou para o estágio, muitas vezes a criatividade some. Uma das estratégias que eu uso quando isso acontece é fazer uma playlist. Com isso eu acabo lembrando alguma situação, de algo que eu havia lido ou visto e a partir daí a criatividade reaparece com força total. Muitas vezes a ideia passada no verso de uma canção embala todo o ritmo de um texto meu.

Outro poder que a música tem é o de eternizar momentos ou fases importantes da nossa vida. Quando ouço “Aquarela” de Toquinho ou “Planeta Água” de Guilherme Arantes, por exemplo, lembro minha infância. Talvez por ter tido professores que sempre colocavam essas músicas pra tocar nas aulas. Outro exemplo é “Quando te Vi”, uma versão que Beto Guedes fez para “Till There Was You” de John Lennon e Paul McCartney, que me faz lembrar minha mãe porque ao ouvir essa música ela conta que foi essa a trilha de quando ela entrou na igreja no dia de seu casamento.

Vou deixar aqui uma canção que me acompanha há mais ou menos uns cinco anos. Não que eu seja fã dos Cranberries, só conheço os hits, mas “Linger”, de Dolores O’Riordan e Noel Hogan, independente do sentido da letra, é naturalmente forte, marcou uma fase da minha adolescência e até hoje eu gosto muito de ouvir. Gosto tanto que não ouço sempre justamente pra não perder a graça. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Cidade abandonada e ao mesmo tempo sitiada

Desde a última quinta-feira Salvador tem vivido uma onda assassinatos, vandalismo e roubos por causa da greve de parte dos policiais militares. Quando comecei a escrever este texto já haviam sido registradas 43 mortes, 58 carros roubados, 10 lojas arrombadas, R$ 200 milhões em prejuízo e mais de 70 peças teatrais e shows cancelados ou adiados, segundo informações do jornal Correio e G1 Bahia.

Tudo começou a acontecer no dia 2 de fevereiro, dia de festa na cidade. Eu até cheguei a comentar que em pleno dia de saudar a rainha das águas salgadas, todos acordaram de branco, pedindo paz, proteção e, no entanto, no final da tarde as pessoas não sabiam como iriam voltar para casa ou não queriam cogitar a possibilidade de sair dela. Nem a casa de Iemanjá no bairro do Rio Vermelho ficou imune a um arrombamento e roubo.

Todos se assustaram e ficaram com medo, não dava pra sentir segurança em lugar nenhum. Não vi acontecer nenhuma dessas situações, mas algumas pessoas me contaram sobre conhecidos que viveram um verdadeiro desespero nas ruas. Uma amiga minha, que voltava da faculdade para casa, estava a bordo de um ônibus próximo aos que foram parados por policiais e atravessados no meio da Av. Paralela, uma das mais movimentadas de Salvador.

O jornal A Tarde, Correio, Folha de São Paulo, O Globo etc. amanheceram estampando o assunto em suas capas e até os internacionais Washington Post (EUA), El País (Espanha), Clarín (Argentina) e II Journal (Itália) deram grande destaque à situação de Salvador e alertaram que tudo estava começando a se refletir no interior do Estado.

Ao todo, mais de 3000 homens da Força Nacional, exército, marinha e aeronáutica estarão na cidade para reforçar que "a PM do estado da Bahia, centenária milícia de bravos e defensora da paz, não pode se transformar num instrumento de intimidação e desordem", como disse o governador Jaques Wagner em pronunciamento feito na última sexta-feira (03) pela rádio e TV.

Há algumas semanas eu já pensava em escrever aqui sobre o abandono no qual a cidade se encontra, principalmente depois de ter visto imagens da praia do Farol da Barra tomada de lixo. A partir de agora, além da revolta por conta desse abandono, perceber este clima de insegurança, que mesmo com a presença da Força Nacional e das Forças Armadas não vai passar, me faz pensar de que forma ficaremos tranquilos para retomar nossa rotina ou fazer qualquer tipo de programação para aproveitar o Carnaval.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Uma diferença (in)visível

Este é um texto que eu estava devendo ao blog há algum tempo. Resolvi que ia fazer uma postagem sobre as dificuldades enfrentadas pelos deficientes depois de presenciar duas situações absurdas. Uma em um micro ônibus e a outra em uma clínica no bairro do Rio Vermelho.

Na primeira situação eu estava a bordo do micro ônibus quando ele parou em um ponto no Imbuí para realizar o embarque de uma senhora e de sua filha, que era deficiente mental e tinha dificuldades de locomoção. Quando a garota estava subindo com o auxílio de sua mãe, o motorista colocou o veículo em movimento com a porta ainda aberta. Neste momento a mãe gritou desesperada temendo uma provável queda.

O que ela ouviu do motorista, que freou logo após o grito, foi um “Vai levar o dia todo?!”. Ela entrou, acomodou a filha e começou a discutir com o motorista que ouviu tudo calado até encerrar a discussão com um “Da próxima vez que a senhora pedir o ônibus eu vou passar direto!”. O nervosismo daquela mãe com toda a situação era tão grande que ela não conseguiu mais dizer nada, só fazia chorar.

A segunda situação foi quando eu estava no segundo andar de uma clínica no Rio Vermelho e aí um senhor que tinha uma deficiência na perna chegou ao andar de baixo para realizar um eletrocardiograma. A clínica não tinha rampa ou elevador e só havia um aparelho no andar de cima para o exame.

Nessa hora começou uma discussão entre os funcionários para saber o que iria ser feito. Uma assistente chegou a comentar que “Aqui só tem escada. Ele veio porque quis. Não é problema meu!” e outra disse: “Manda ele para a clínica de Ondina que lá eles dão jeito”. Durante o "debate" a recepcionista ligou para uma pessoa que deu a ordem de levar o aparelho para a sala do andar de baixo. Foi aí que veio a surpresa. O aparelho era exatamente como o da imagem acima: pequeno, sobre uma mesa de rodinhas e podendo ser carregado por uma pessoa sem precisar fazer grandes esforços.

Depois de presenciar estas situações eu passei a prestar mais atenção nos deficientes e percebi o quanto Salvador é despreparada para atender a estas pessoas. Apesar de estar previsto em lei, a maioria dos lugares não tem uma estrutura ideal para receber deficientes. É muito comum encontrar vias públicas sem rampas. As marcações em alto relevo no chão para os deficientes visuais são mais raras ainda.

A maioria das ruas, avenidas, praias, estabelecimentos como: restaurantes, prédios onde funcionam órgãos públicos, escolas etc., só para citar como exemplo, são lugares onde qualquer pessoa pode frequentar sem restrição e a qualquer momento, correto? Não, errado! Não é isso o que a gente observa. Todo mundo sabe do direito de ir e vir, mas quando se trata de deficientes parece que todos resolvem fechar os olhos e trata-los como se fossem invisíveis.

Em Ondina existe a única praça da cidade que atente as necessidades dos deficientes físicos e sensoriais (visuais e auditivo). O nome dela é Bahia Sol e possui quadra poliesportiva com piso especial, lanchonetes e bares com balcão rebaixado e cardapio em braille, além de rampas de acesso até a praia.

Já que estamos em ano eleitoral, vamos dar mais atenção à causa do deficiente. Na hora de analisar as propostas dos nossos candidatos vamos observar e cobrar deles uma assistência maior a esta minoria.