sábado, 1 de março de 2014

Sobre a saudade

Com a viagem marcada para o dia 25 de janeiro, um sábado, foi justamente no início dessa semana que eu comecei a sentir o quanto que Salvador ia me fazer falta. Como tive que andar muito pela cidade para resolver alguns problemas que eu não ia poder resolver à distância, eu ia observando atentamente cada pedacinho de Salvador. Era como se eu quisesse lembrar perfeitamente de tudo enquanto estivesse fora. Como se fosse possível esquecer em seis meses do lugar onde eu vivi a vida inteira.

Marquei uma reunião com amigos e família para a véspera da viagem, na sexta-feira, mas durante a semana fui encontrando os amigos que não iam poder comparecer. E no dia anterior, na quinta, fui com outros amigos a um ensaio de verão de Margareth Menezes. Como sou completamente apaixonado por samba-reggae, aquele dia foi bastante especial porque era o último show que eu ia assistir na cidade antes de viajar. E para tornar a noite ainda mais especial, Margareth ainda ia contar com a participação de Daniela Mercury e do Olodum. Ou seja, um banho de baianidade perfeito, tudo que eu precisava. Em alguns momentos quando eu ouvia alguma canção muito marcante do carnaval eu me emocionava, ficava bastante arrepiado. Acho o carnaval uma festa sensacional, apesar de não ir pra rua todo ano. É um momento mágico em que a cidade exubera. 

No final da despedida, na sexta-feira, quando os primeiros amigos começaram a ir embora eu chorei como nunca havia chorado antes em público. Sou chorão, mas é muito difícil eu fazer isso na frente das pessoas. Chorei, chorei muito! Na despedida, arrumando as malas, no aeroporto, no embarque e dentro do avião cheguei a soluçar que nem criança. Só me forcei a parar quando comecei a sentir cãibra na garganta.

Durante a primeira semana em Toronto tudo era tão novo que eu acabava não tendo muito tempo de pensar na falta que tudo e todos estavam me fazendo. Mas do primeiro fim de semana em diante eu comecei a sentir uma tristeza muito grande. Sentia falta de tudo, me senti sozinho, perdido e até com receio de ter que ficar nesse lugar tão novo pra mim em todos os sentidos por um semestre. Não tinha motivação pra conhecer a cidade, pra conhecer gente, pra estudar... Nada.

Em mais ou menos quinze dias eu comecei a acordar e perceber o quanto que eu estava perdendo ao me deixar levar por aquela energia tão negativa. Mergulhei nos estudos, comecei a sair mais com amigos ou até sozinho, comecei a malhar e a ocupar a cabeça. Hoje estou encantado com essa experiência toda, mas confesso que ainda conto as semanas para voltar. O calendário fica em uma parede em frente a minha cama. Acordo e vou dormir olhando pra ele.

Viver aqui tem sido bastante enriquecedor do ponto de vista profissional porque eu estou ganhando uma fluência no inglês que eu acredito não ser possível ganhar fazendo cursos em Salvador. Mas sobretudo, o mais interessante tem sido me pegar tendo outra dimensão do mundo e das pessoas que fazem parte da minha vida. Ando até me conhecendo melhor. Precisei sair do país pra ser apresentado a mim mesmo. Acho que isso na verdade tem sido um ganho de maturidade. Cheguei aqui de um jeito, hoje, um mês e alguns dias depois, me sinto um pouco diferente (as vezes até estranho...) e com certeza no final disso tudo estarei mais diferente (ou mais estranho. rs) ainda. 


Imagens: http://instagram.com/arturqzz