segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Saudade sem cura

Há exatamente seis meses estava eu saindo de Toronto para voltar à Salvador depois de um intercâmbio que aconteceu durante todo o primeiro semestre de 2014. Daqui a uma semana faz um ano que eu saí daqui para chegar naquela terra gelada e que nos primeiros dias me fez pensar se eu realmente queria ficar tanto tempo longe de casa. À época nem passava pela minha cabeça que Toronto também ia virar na essência a minha casa e que sair de lá ia ser mais doloroso que deixar Salvador.

Só fui assimilar a ideia de que estava deixando o Canadá quando saí com duas malas pesadas da casa em que eu estava morando. Fiquei muito sentido ao longo do caminho no metrô. A cada estação eu lembrava de algum episódio dessa que foi a minha mais incrível aventura. Foi uma espécie de retrospectiva de tudo de melhor que eu vivi naquela cidade maravilhosa. 

Vista da CN Tower
No aeroporto eu acabei me distraindo porque encontrei um amigo que vinha no mesmo voo que eu. O momento realmente difícil foi quando o avião começou a andar pela pista do Pearson Airport. Foi surgindo uma vontade tão grande de ficar... Mais forte até do que a que eu vinha sentindo há um mês. O frio na barriga foi se misturando com a tensão que eu sinto nos primeiros minutos à bordo de um avião prestes a levantar voo. A saudade foi crescendo na mesma velocidade em que a aeronave alcançava o céu. A cidade do alto, à noite e enfeitada por milhares de luzes foi a última imagem que eu tive de lá.

Vindo de São Paulo para Salvador, a primeira cena foi do bairro do Rio Vermelho. Mais precisamente a orla na região do hotel Pestana Bahia. Tenho um carinho grande pelo Rio Vermelho porque morei lá por um bom tempo. Apesar de ser uma das muitas regiões de Salvador que eu amo, naquele momento ver o bairro não foi tão interessante. Na verdade era tudo o que eu não queria ver. Mas tava consumado. Voltei pra Salvador! 

Cheguei meio sem reação. Não estava exatamente triste, mas ao mesmo tempo estava longe de sentir felicidade. Fui observando cada ponto da cidade no caminho entre o aeroporto e a minha casa. E estranhei a casa, o meu quarto... Não dormi bem nas primeiras noites, fiquei me sentindo um estranho e até meio deslocado. E olhe que foram só seis meses!

Tudo me incomodava bastante por aqui. Da infraestrutura da cidade ao comportamento das pessoas. Não que eu imaginasse que em seis meses eu iria encontrar uma Salvador perfeita. Mas acabou sendo um choque já que eu estava recém adaptado a uma nova realidade.

Distillery District: cenário de um dia especial
Só depois de alguns meses é que fui olhar as fotos que tirei em Toronto e ler os textos aqui do blog. Ainda sinto muita falta dos lugares que visitei por lá, dos que eu frequentava, da casa em que eu morava, de cada situação boa ou ruim com a qual eu me deparava, da liberdade que eu tinha, de quem eu deixei, da comida da minha mãe canadense, do gato que morava comigo e até do frio.

Fui aprendendo que o melhor remédio para a saudade se chama tempo. Mas tem dias em que essa saudade fala mais alto e aí o melhor mesmo é deixar ela gritar o quanto e no tom que quiser. Depois ela se acalma e volta a ficar mansa. Ir embora ela não vai. E que bom que não vai! Vivi tantas alegrias naquela época que não quero (e nem posso!) esquecer.

O engraçado é que com esse começo de 2015 tudo que eu vivi por lá vai começar a completar um ano. E essa lembrança vai fazendo a saudade parecer mais forte. Mas penso em visitar Toronto. Só não sei quando... Conheço boa parte da cidade e a ligação afetiva que criei com ela vai ser eterna. Mesmo que eu faça outros e até mais longos intercâmbios, esse no Canadá sempre vai ser especial. Até passar por essa experiência eu nem cogitava possibilidade de deixar o Brasil. Mas como uma amiga me disse pouco depois de eu voltar: uma vez que a cabeça da gente se abre pro mundo, não tem mais volta.

"E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar
Não tem tempo
Nem piedade
E nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda a nossa vida
E depois convida a rir ou chorar"
(Toquinho e Vinícius de Moraes).

Imagens: Arquivo pessoal