sábado, 31 de maio de 2014

Comida de verdade e comida de latinha

Uma das maiores dificuldades que eu tive no processo de adaptação à vida canadense foi conseguir me acostumar com a comida daqui. O café da manhã não era problema porque eu basicamente tomava um leite com cereal, torradas e suco ou iogurte. O jantar era a melhor refeição que eu fazia durante o dia. A minha ''mãe'' é uma excelente cozinheira e todos os dias preparava pratos maravilhosos. As massas e as saladas que ela preparava eram coisas de outro mundo! E eu nem precisava repetir porque ela sempre me servia pratos enormes. O que geralmente acontecia era eu ficar satisfeito, mas ainda assim comer tudo que ainda estava no prato para não desperdiçar e fazer desfeita. 

O grande problema era com o almoço. Durante o período de estudo eu tinha que almoçar na rua, já que a primeira aula acabava às 12h e a segunda começava às 13h. Passei um bom tempo entre pizza e sanduíche. Parei porque aquilo não estava me fazendo bem e também porque eu aqui sempre tive medo de ficar doente, apesar de ter plano de saúde. Se eu continuasse comendo besteira todos os dias, essa história definitivamente não ia acabar bem. Pra falar a verdade as coisas já não estavam muito boas. Digamos que o meu intestino passou muito tempo ''de mau'' comigo. Isso me preocupava muito porque era um sinal que o meu corpo estava dando de que as coisas não estavam indo bem.

Alga desidratada.
Prestes a completar o primeiro mês na casa de família canadense, eu pedi à dona da casa para incluir o almoço nas minhas refeições. Tive que pagar uma quantia extra (cerca de C$ 30) porque a hospedagem na casa dela incluía apenas café da manhã e jantar. Não era nada muito rigoroso porque eu tinha acesso livre à geladeira da casa. E como éramos só nós dois, ela fazia a gentileza de comprar muitos lanches para que eu pudesse comer ao longo da tarde caso sentisse fome. 

Antes de vir para Toronto li em muitos lugares e ouvi de muita gente que canadense não almoça. Pelo menos não fazendo grandes refeições como a gente faz no Brasil. Não chega a ser assim com todo mundo por aqui, mas a verdade é que os canadenses normalmente se contentam com um suco ou então uma salada bem simples. O almoço deles é como se fosse o nosso lanche. Não é comum ao meio dia as pessoas comerem arroz, feijão, macarrão, carnes e frango como a gente normalmente faz. Quando o almoço que ela deixava pra mim era a sobra do jantar, estava ótimo. Mas quando não era, eu geralmente tinha que me contentar com uma saladinha ou uma sopa. 

Sou viciado nesse biscoito.
Quando eu me mudei e passei a morar sozinho minha alimentação ficou péssima. Muito porque eu não sei cozinhar e não tenho talento nenhum para isso. Tive que recorrer a minha mãe, meus amigos e o Google para aprender a preparar arroz, macarrão, carnes e até cozinhar uma batata doce ou um aipim. No início era tudo terrível, uma verdadeira gororoba. Hoje eu continuo fazendo feio na cozinha, mas já não estou mais tão ruim quanto antes. Acho que o meu grande problema é a preguiça de fazer comida. Acabo fazendo de qualquer jeito quando não compro algum prato congelado no mercado, coloco no microondas e forro o estômago. Isso me deixa até com a consciência pesada porque sempre gostei de manter uma alimentação saudável de segunda a sexta-feira.

Falando em comida congelada de supermercado, é impressionante o verdadeiro vício que as pessoas daqui tem em comida industrializada, artificial. Eu sinto muita falta de uma comida mais natural, mais leve, com um tempero de verdade. Você pode encontrar de tudo pronto aqui. Lembro que uma vez na escola, durante o intervalo, uma colega coreana sacou da mochila um pacote que parecia ser de biscoito. Quando ela abriu a embalagem, era nada mais nada menos que maçã em pedaços. Pedaços estes banhados em um líquido que mais parecia água suja. Devia ser algum tipo de conserva.

Como em julho eu chego em Salvador num domingo, a semana por lá já vai começar com uma operação de guerra de desintoxicação. Mas sei que não vai ser fácil acostumar novamente com o que é bom de verdade o organismo que já está tão habituado com a comida ''de latinha'' daqui.

Feijoada brasileira! Um dos raros momentos de ''comida de verdade'' por aqui.
Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sábado, 24 de maio de 2014

O segredo é não parar de falar

Assim que abri o blog para fazer esta postagem percebi que a última havia sido feita há um mês e alguns dias. O tempo tem passado tão rápido que as vezes eu até me assusto... Fico até me perguntando como foi que o meu primeiro mês aqui em Toronto pareceu uma eternidade e, no entanto, de um tempo para cá o relógio tem dado voltas numa velocidade fora do normal. Acho que isso é porque as coisas por aqui deixaram de ser novidade e eu já não me sinto mais um estranho nessa terra que é fria mesmo em dias tão ensolarados que me fazem lembrar o céu de Salvador.

Desde o meado do mês de abril a minha rotina mudou bastante por aqui. Isso porque as minhas aulas acabaram. Como eu já falei em postagens anteriores, esse intercâmbio conta com três meses de estudo e três meses de trabalho ou WEP (Work Experience - Experiência de Trabalho). No meu segundo dia de Toronto eu já estava na escola tendo aula das 9h às 16h. A primeira aula era das 9h às 12h, a segunda das 13h às 14h30 e a terceira das 14h30 às 16h. Como no dia do teste de nivelamento eu escolhi o curso que era mais voltado para a comunicação, essa primeira aula treinava a forma de a gente se expressar para se fazer ser compreendido pelos outros colegas. As outras aulas mudavam a cada mês de acordo com a nossa escolha e orientação dos professores. Tive aulas focadas em gramática, leitura, pronúncia, vocabulário e oratória (a melhor  de todas!). 

No meu primeiro dia de aula a sensação era de que eu nunca havia estudado inglês na vida. Ou pelo menos de que nunca havia passado do nível básico nos cursos que fiz em Salvador. Há muitos anos estudei na extinta escola de idiomas UEC, que funcionava no mesmo prédio do Teatro Jorge Amado, na Pituba. Anos depois, já na faculdade, eu concluí em dois anos o curso de inglês do Núcleo de Extensão em Letras da Universidade Federal da Bahia, em Ondina. Ao chegar aqui a minha base de gramática até que era razoável, mas conversar em inglês pra mim era quase impossível. Só fui ter a dimensão do quão ruim foi passar tanto tempo sem praticar o idioma quando cheguei aqui. 

Apesar desse susto, já na primeira semana eu senti uma melhora significativa. Não tinha como não ser desse jeito já que além de um dia inteiro de aula, a canadense, dona da casa em que eu morei nos dois primeiros meses, também só falava em inglês. Toronto tem brasileiros por toda parte e é inevitável você não falar português com um que você conheça aqui. Antes de vir para cá muita gente me dizia para fugir dos brasileiros. Pra mim isso é bobagem. Conheci também muita gente de todas as partes do mundo. Colombianos, espanhóis, italianos, franceses, portugueses, eslováquios, suecos, mexicanos, irlandeses, japoneses, coreanos... E claro, canadenses.

Mesmo quando eu já estava me arriscando mais a conversar em inglês sem aquela preocupação de estar falando da maneira mais correta, os diferentes tipos de sotaque me atrapalhavam bastante. Se no Brasil a gente não consegue entender certas palavras por causa da forma como os brasileiros de diferentes regiões falam, imagine quando se trata de um idioma que a gente não domina completamente... Era muito, muito difícil. Com algumas pessoas eu conseguia conversar por horas, mas com outras até um simples ''good morning'' era difícil de se entender.

Quando as minhas aulas acabaram eu ainda quis ficar por mais tempo na escola. Pra mim o inglês só ia ficar afiado com mais algumas aulas. Mas acabei usando o tempo livre que passei a ter para, entre outras coisas, estudar gramática e vocabulário. Continuo treinando o ouvido como já fazia antes: ouvindo música em inglês e assistindo filmes e seriados ora com legenda em inglês e ora sem legenda. Não é a mesma coisa de estar em sala de aula todos os dias, mas tem sido bastante produtivo. Já a fala eu basicamente tenho treinado com alguns amigos canadenses. A ''avaliação'' deles acaba sendo um termômetro pra eu saber se estou falando bem ou não. Eu acho até que quando se trata de treinar a fala e o ouvido, o melhor mesmo é ir pra rua e falar com as pessoas em inglês. Sem medo de errar e estando aberto a ouvir correções. 

Sem nenhum exagero, esses três meses que eu levei estudando inglês em sala de aula por aqui foram mais produtivos que os anos que levei estudando em escolas de idioma em Salvador. Talvez um dos fatores para isso seja por eu não ter mais tocado em nada do idioma depois que concluí o curso por lá. A verdade é que o grande segredo é não deixar de praticar. Quando eu voltar ao Brasil vai ser mais difícil porque eu não vou achar um estrangeiro pra ficar conversando comigo em inglês, mas deixar o idioma totalmente de lado como antes, jamais!

Vista da janela da sala
Imagem: http://instagram.com/arturqzz