sábado, 12 de julho de 2014

''Tempo rei''

Distillery District
Engraçado como o tempo faz verdadeiros milagres na vida da gente, na nossa cabeça e no nosso coração. Há exatos cinco meses e dezesseis dias eu desembarquei em Toronto para dar início a um intercâmbio. Sou jovem, tenho 22 anos, e havia acabado de concluir a minha graduação. Ou seja, como muita gente me disse antes da viagem, eu escolhi a época certa para viver essa experiência. Já pensava em fazer intercâmbio antes mesmo de entrar na faculdade. Ao longo do tempo fui conversando sobre a ideia com meus pais e aí com cerca de um ano de antecedência comecei de fato a me preparar para a viagem.

Até então eu nunca tinha ficado mais de quinze dias longe de casa ou feito uma viagem internacional. Como a vida inteira ouvi de muita gente que eu era maduro e que tinha uma cabeça de uma pessoa mais velha, cheguei a ter a pretensão de imaginar que ficar longe de tudo por esse tempo não seria um grande desafio pra mim. Doce ilusão... No meu primeiro dia em Toronto a sensação de solidão me apavorou e fez com que eu me sentisse um grão de areia, além da impressão de que esses quase seis meses de intercâmbio seriam uma eternidade.

Sair da cidade onde sempre vivi para chegar em uma outra tão diferente, e na época tão fria, era encantador mas ao mesmo tempo me assustava. Não há nada em Toronto que faça referência a qualquer lugar do Brasil. É uma realidade completamente diferente. Mas o mais complicado mesmo foi perceber que o contato mais próximo que eu conseguiria ter com a minha família e com os meus amigos seria via Skype. A mudança foi muito brusca pra mim. Poucas semanas antes de viajar eu estava preparando a apresentação do meu trabalho de conclusão de curso pela manhã, trabalhando à tarde, fazendo um curso à noite, vendo minha família todos os dias e os meus amigos em todos os finais de semana. Sem falar que eu saí do Brasil no final de janeiro, auge do verão.

Tudo naquela terra até então nova me parecia muito estranho o tempo todo. Fora um amigo meu que mora em Toronto há alguns anos, eu não conhecia mais ninguém na cidade. Não sabia andar nas ruas, tinha que olhar o mapa pra poder pegar o ônibus certo pra voltar pra casa, morava com uma pessoa que eu nunca tinha visto na vida, não ouvia português em lugar nenhum e ainda tentava trabalhar a minha cabeça para não pirar em meio a aquele frio que não passava.

Eu costumo dizer que levei cerca de 15 dias para chegar em Toronto. Isso porque nessas duas primeiras semanas eu não tinha vontade de fazer nada. A tristeza e a saudade eram muito grandes. Cheguei até a achar que ficar longe até julho era demais, desnecessário.

Passada essa fase de tristeza e melancolia, Toronto foi pouco a pouco me ganhando. Fui começando a conhecer a cidade, conhecer gente, a me apegar e a me apaixonar por aquela nova realidade. Foi uma paixão que surgiu tão avassaladora que assim que eu completei dois meses de intercâmbio conversei com meus pais sobre a possibilidade de ficar mais tempo. Queria ficar mais seis meses pra poder fechar um ano de intercâmbio. Estudamos todas as possibilidades, mas não deu. Fiquei e ainda estou muito sentido, mas não triste porque viajei à princípio com o pensamento de ficar até julho. Antes mesmo de sair de Salvador eu já sabia que se resolvesse ficar mais tempo fora, essa seria uma possibilidade remota.

Acho que o que mais vai me fazer sentir falta de Toronto é a liberdade e a sensação de segurança. Não tem coisa melhor do que você viver em um país extremamente civilizado como é o Canadá. Fora o fato de não haver grandes problemas com criminalidade e mobilidade urbana. Qualquer um se encantaria. 

Ainda não sei dizer o que foi melhor nessa experiência toda. Vivi tanta coisa por aqui. A sensação é de que vivi vários anos em um só. Cheguei aqui de um jeito e saio de outro. A melhora no inglês pra mim foi o mínimo que eu pude ganhar. Acho que o melhor mesmo foi o amadurecimento. Hoje eu me conheço muito mais do que antes. Eu olho pro meu umbigo e percebo claramente quais são os meus maiores defeitos e as minhas maiores qualidades. Hoje me vejo com mais certeza da importância que muita gente tem na minha vida. Sem falar que, como já disse em outra postagem, passei a olhar o espelho de forma diferente. Precisei ficar tão longe, por tanto tempo, vivendo uma vida tão diferente da que eu sempre tive para poder me conhecer, me enxergar e ter certeza de quem eu sou de verdade, do que eu quero pra mim e do que me faz bem. Abri minha cabeça pro mundo. Me sinto mais corajoso e menos ansioso. Meus sonhos se tornaram mais claros pra mim porque aprendi a andar com os pés mais firmes no chão.

A tarefa agora é começar e recomeçar a vida no meu país. Continuo querendo muita coisa e espero que esse segundo semestre seja tão ou mais valioso do que já foi o primeiro. Mas independente disso, 2014 definitivamente já se tornou o melhor ano da minha vida. E essa experiência é sem dúvida a mais linda e intensa que eu já tive.

Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O canadense

A gente sempre ouve dizer que o Brasil tem a fama de ter um povo hospitaleiro, simpático e que sabe receber bem o turista. Com todos os holofotes do planeta voltados para o país em função da Copa, essa imagem foi reforçada para o mundo inteiro. Basta assistir a qualquer vídeo na internet que apresenta o país ou as cidades sede dos jogos que dá pra perceber claramente que essa energia do brasileiro é apresentada quase que como mais uma atração turística. Não sei como são os outros povos ao redor do mundo, mas desde o meu primeiro dia em Toronto já pude sentir o quanto que o canadense é educado, solícito e agradável.

Ao desembarcar fiquei sem saber para que lado ia porque o aeroporto internacional de Toronto é muito grande. Quase um labirinto. Meu amigo acabou demorando um pouco para ir me buscar. Até saber do paradeiro dele eu pedi informação sobre a saída do aeroporto a alguns funcionários que me trataram muito bem. E olhe que nessa época eu falava muito pouco em inglês. Depois fui pedir informação a uma mulher que havia chegado ao aeroporto e aí no meio da conversa ela ofereceu o seu celular para que eu pudesse enviar uma mensagem a esse meu amigo que ainda não havia chegado. Foi uma primeira impressão muito boa que eu tive dos canadenses só nesse primeiro momento ao chegar em Toronto.

Como eu já disse em outras postagens, me perdi muitas vezes andando pelas ruas da cidade. Em todas essas situações, que vez ou outra ainda se repetem, eu acabava indo pedir informação às pessoas. Sempre me orientavam muito bem. Uma vez ao sair de um shopping eu errei o caminho para a estação de metrô. Já era noite e nevava bastante. Eu estava carregando sacolas e morrendo de frio. Pedi ajuda a um casal e eles foram tão gentis que praticamente me levaram até a entrada da estação para ter certeza de que eu não viria a me perder novamente.

Engraçado que antes de vir para cá, quando alguém se aproximava de mim para pedir uma informação a primeira reação que eu tinha era de susto. Aqui quando você se aproxima de alguém para perguntar algo, basta começar com um pedido de licença que a pessoa te dá toda a atenção do mundo. E o melhor, essa atenção vem acompanhada de simpatia.

Com o tempo eu fui aprendendo por aqui algumas regras básicas de convivência. Por exemplo, aqui as pessoas não tem o hábito de se cumprimentarem com beijo no rosto e/ou abraço. Normalmente fica apenas em um aceno ou um balançar de cabeça com um sorriso. Abraço é só quando há muita intimidade. Muito canadense cumprimenta com abraço, mas na dúvida eu prefiro sempre optar por um aperto de mão. Mas se eu vejo que a pessoa faz menção a um abraço, lógico que eu não recuso. Inclusive, no começo eu até senti um pouco de falta dessa coisa que a gente tem de se tocar ao se cumprimentar para dizer um ''olá'' ou um ''até logo''. Somos mais afetivos nesse sentido.

Lembro que no dia do meu aniversário, quando a minha ''mãe'' me desejou parabéns, me deu um bolo e um presente, eu fiquei numa dúvida cruel se deveria ou não dar um abraço. Nessa dúvida eu preferi apenas agradecer bastante. Um tempo depois ouvi de um amigo canadense que nesse caso eu podia ter dado um abraço. rs

Outras regras básicas por aqui são: tirar os sapatos ao entrar na casa das pessoas; sempre dar gorjeta; sempre deixar o lado esquerdo da escada rolante livre (muita gente não sabe, mas isso é regra em qualquer lugar! Ou deveria ser...); só entrar nos veículos de transporte público após as pessoas que pediram o ponto saírem; sempre sinalizar no bonde ou no ônibus que você deseja descer na próxima parada; não demorar no banho por mais que com o tempo frio a água quente esteja irresistível; pontualidade (sempre!); não falar o seu idioma de origem em uma roda de amigos em que tenha gente que não entenda, ainda que dez falem português e só um fale inglês; e para quem mora em homestay é de bom tom jantar com a família; ainda em homestay, não pega bem usar o celular à mesa.

Não vou citar os pontos ruins porque acho que não vai ser legal. Mas nem tudo são flores, afinal, gente mal educada e ignorante existe em qualquer lugar.

Namoro

Algumas pessoas já me perguntaram quanto a dar início a relacionamento com gente de fora em meio a um intercâmbio. Bom, acho bobagem viajar pensando em ter essa experiência. Quando as coisas acontecem naturalmente tudo é muito melhor. Pra mim, desde que a pessoa não esqueça de que saiu do seu país para viver por alguns meses fora tendo como foco os estudos, tudo é permitido. Inclusive, por se tratar de um relacionamento entre pessoas que tem culturas completamente diferentes, as coisas se tornam ainda mais interessantes. Uma das boas consequências disso é que o inglês acaba tendo uma melhora muito grande. O que não pode é querer fantasiar demais a eternidade da relação. Isso porque ela já começa tendo um prazo máximo para acabar. Ou talvez não, caso você queira jogar tudo para o alto em nome do sentimento que surgiu disso tudo. rs. Quem sabe...

Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sábado, 14 de junho de 2014

O medo de andar na rua não veio na mala

Em uma das minhas últimas semanas em Salvador tive o desprazer de presenciar dois assaltos em pleno trânsito. No primeiro duas meninas foram assaltadas no mesmo ônibus em que eu estava. No segundo o marginal arrombou o vidro de um carro que estava parado em um engarrafamento. Da janela do ônibus eu vi tudo acontecer. Quem já foi assaltado ou já viu um acontecer sabe que a sensação é de medo, depois impotência e por último revolta. Não gosto de ficar aqui comparando Toronto a Salvador porque minha intenção nessas postagens nunca foi essa. Mas, como qualquer jovem que cresce em uma grande cidade brasileira, passei a vida inteira ouvindo que por estar vulnerável a uma situação dessas eu devo ter cuidado ao andar na rua, dirigir, ir ao banco etc. Me acostumar com a atmosfera de segurança canadense chegou a ser engraçado justamente por causa dessas defesas. 

O Canadá é o país que conta com uma das taxas mais baixas de homicídios por número de habitantes de toda a América, segundo estudos de 2012 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC). Pude ter a noção disso com poucas semanas vivendo por aqui. As pessoas andam em qualquer lugar completamente despreocupadas. Não hesitam em atender o celular em uma avenida movimentada ou em uma rua deserta, usar o tablet em pleno ponto de ônibus ou o notebook no metrô. Até o fone de ouvido as pessoas usam conectados ao celular com o fio por fora da roupa.

Na primeira vez que eu saí à noite, voltei sozinho e de madrugada. Isso ainda sem conhecer muito da cidade. Confesso que à primeira vista a sensação de andar só em uma rua deserta não foi nem um pouco agradável. Mas lá pela segunda ou terceira vez eu já estava mais tranquilo. Fui me acostumando e aí o medo e o receio foram embora. Claro que vez ou outra surge aquela desconfiança de algum lugar ou de alguém, mas a cidade tem um clima de paz tão grande que você acaba ficando naturalmente tranquilo. Os policiais daqui, por sinal, são super educados, solícitos e de fato fazem você se sentir ainda mais seguro na presença deles.

Muro e grade são coisas que eu quase não não vejo por aqui. A maioria das casas e até prédios tem no máximo, e quando tem, apenas um cercado que é muito mais por decoração, proteção do jardim e delimitação do terreno do que por qualquer outra coisa. E a primeira porta da casa normalmente já é a que dá na da sala.

Quando eu estava procurando uma casa para morar aqui pós período de homestay, cheguei a encontrar um apartamento com um preço bom, mas em uma região bem afastada do centro da cidade. Amigos, conhecidos e até professores me aconselharam a não ir pra lá porque se tratava da área mais perigosa da cidade. Mas ninguém sabia explicar ao certo qual é o perigo. Eu cheguei a visitar o apartamento e achei a vizinhança aparentemente normal. Um tempo depois eu fui descobrir que a área não é muito recomendada porque algumas gangues esporadicamente iam ao local para trocar ofensas e brigar. Só que esses confrontos muitas vezes acabavam em gente baleada. Mas como disse uma professora minha e eu infelizmente tive que concordar: - não chega a ser tão perigoso quanto uma favela do Rio de Janeiro!

Apesar de o sistema de segurança ser eficiente e de os índices de criminalidade serem baixos, isso não significa que a gente pode sair por aí dando ''sorte ao azar''. Ter cautela é sempre bom. Eu ainda não conheci uma pessoa que já tenha sido assaltada ou sofrido um sequestro relâmpago em Toronto. Quando eu ou qualquer outro brasileiro comenta com algum gringo do quanto isso é comum no Brasil, eles ficam apavorados. E com razão. Eu mesmo já fui assaltado quatro vezes em Salvador. E não faço ideia de quantos amigos meus já passaram por este tipo de experiência. É tão frequente que chega a cair na banalização. E nós somos tão conformados que muitas vezes colocamos a culpa na própria vitima por estar com o celular ou a carteira muito evidentes no bolso da calça, ou a corrente no pescoço, o fone de ouvido...

Suicídio

Mesmo sendo um país maravilhoso os índices de suicídio por aqui são estranhamente altos. Maiores que os do Brasil. Teve época em que quase toda semana eu ouvia alguém falar sobre um caso desses. Um amigo canadense recentemente viu uma mulher caindo de um prédio. Horas mais tarde ele ficou sabendo que se tratava de mais um caso de suicídio. Andei lendo sobre o assunto e vi que há um estudo que aponta que países considerados felizes normalmente tem uma quantidade maior de casos dessa espécie porque para a pessoa que pensa em atentar contra a própria vida, viver em um lugar ''perfeito'', que praticamente respira felicidade, aumenta o sentimento de tristeza e depressão. Quem se interessar pelo assunto pode dar uma olhada aqui e aqui.

Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sábado, 7 de junho de 2014

Caminho de casa e caminho de me perder

Eu já nem lembro quantas vezes me perdi andando pelas ruas de Toronto. Só na primeira semana foram umas quatro vezes. Lembro que uma vez eu tinha ido a um shopping perto da escola, mas na hora de voltar acabei entrando em uma rua errada e aí de repente eu não fazia a menor ideia de onde estava. Isso sem falar no dia em que eu cheguei aqui e me perdi porque fui pro ponto de ônibus errado. O detalhe é que isso tudo aconteceu quando ainda nevava muito e o frio era insuportável. No fim das contas foi bom porque me fez criar o hábito de andar mais atento a pontos de referência. Mas o que me ajudou mesmo foram os mapas das estações de metrô. Hoje em dia é muito raro eu me perder por aqui. E quando isso acontece, eu entro em uma estação e facilmente consigo me situar.

Os canadenses reclamam muito do sistema de transporte daqui, mas pra mim é tudo ótimo. No transporte público você tem a opção de andar de metrô, bonde ou de ônibus. Em todos os pontos de ônibus ou nas estações de metrô há sempre uma tabela ou uma TV que informa qual o horário da próxima partida. Lógico que é apenas uma estimativa, mas normalmente a diferença é de no máximo dois minutos. Dá até pra arriscar chegar nos pontos em cima da hora. 

O transporte público daqui é tão eficiente que você vê poucos carros na rua. Os canadenses não vêem tanta necessidade de ter um veículo casa. Muitos tem o seu próprio carro, mas é comum você encontrar quem só tire o veículo da garagem nos fins de semana ou nos feriados. E como não há tantos carros na rua também não há engarrafamentos. Apenas em horários de pico você chega a ver algo que de lembre vagamente um congestionamento, mas nem de longe se compara às horas que motoristas e passageiros gastam parados em grandes cidades do Brasil.

O valor da passagem aqui é C$ 3,00, mas há um cartão que te dá direito a usar quantas vezes quiser os veículos de transporte público por aqui mensalmente (C$ 133,75) ou semanalmente (C$ 39,25). Nas estações de metrô é preciso passar esse cartão em uma catraca, mas nos ônibus e nos bondes você deve mostrar ele ao motorista. Muitos motoristas sequer olham para o cartão. Porém, quando alguém entra sem cumprir esse ritual eles param o veículo até que a pessoa pague a passagem ou apresente o cartão ou desça. 

Outra coisa interessante por aqui são os blue nights, que são os ônibus e bondes que rodam de madrugada. Eles passam em um intervalo maior. Cerca de 20 a 30 minutos entre uma partida e outra. Mas é uma boa opção para quem precisa ou quer voltar mais tarde pra casa. Os pontos que contam com esse serviço são sinalizados. Já o metrô, faça chuva ou faça sol, só funciona até à 1h40.

Coluna de uma estação de metrô
No meu segundo mês de vida canadense, eu ainda não sabia que nem todos os pontos contavam com esse serviço 24h e aí quase passei por um apuro. Saí da casa de um amigo à meia noite e só fui chegar na estação onde eu ia ter que pegar o ônibus que me deixava em casa à 0h40. Como o meu ônibus estava demorando mais que o normal para passar, resolvi dar uma olhada na tabela e vi que o último havia passado às 22h30. Um susto! Resolvi tentar ir andando, mas desisti depois de andar poucos metros porque além do frio, começou a cair uma tempestade de neve na cidade. À 1h30 resolvi entrar novamente no metrô (faltando dez minutos para o serviço parar) e ir para a estação anterior à que eu estava. Lá eu descobri um ônibus que ia passar em poucos minutos, mas que ia me deixar a um quarteirão da minha casa. Ufa!

Hoje já não tenho mais esse problema porque na casa em que estou morando há um bonde 24h com ponto na entrada da minha rua. A depender de onde eu vá, muitas vezes prefiro voltar andando mesmo de madrugada. Não, não tem perigo! E é sobre isso que eu vou falar na próxima postagem.

Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sábado, 31 de maio de 2014

Comida de verdade e comida de latinha

Uma das maiores dificuldades que eu tive no processo de adaptação à vida canadense foi conseguir me acostumar com a comida daqui. O café da manhã não era problema porque eu basicamente tomava um leite com cereal, torradas e suco ou iogurte. O jantar era a melhor refeição que eu fazia durante o dia. A minha ''mãe'' é uma excelente cozinheira e todos os dias preparava pratos maravilhosos. As massas e as saladas que ela preparava eram coisas de outro mundo! E eu nem precisava repetir porque ela sempre me servia pratos enormes. O que geralmente acontecia era eu ficar satisfeito, mas ainda assim comer tudo que ainda estava no prato para não desperdiçar e fazer desfeita. 

O grande problema era com o almoço. Durante o período de estudo eu tinha que almoçar na rua, já que a primeira aula acabava às 12h e a segunda começava às 13h. Passei um bom tempo entre pizza e sanduíche. Parei porque aquilo não estava me fazendo bem e também porque eu aqui sempre tive medo de ficar doente, apesar de ter plano de saúde. Se eu continuasse comendo besteira todos os dias, essa história definitivamente não ia acabar bem. Pra falar a verdade as coisas já não estavam muito boas. Digamos que o meu intestino passou muito tempo ''de mau'' comigo. Isso me preocupava muito porque era um sinal que o meu corpo estava dando de que as coisas não estavam indo bem.

Alga desidratada.
Prestes a completar o primeiro mês na casa de família canadense, eu pedi à dona da casa para incluir o almoço nas minhas refeições. Tive que pagar uma quantia extra (cerca de C$ 30) porque a hospedagem na casa dela incluía apenas café da manhã e jantar. Não era nada muito rigoroso porque eu tinha acesso livre à geladeira da casa. E como éramos só nós dois, ela fazia a gentileza de comprar muitos lanches para que eu pudesse comer ao longo da tarde caso sentisse fome. 

Antes de vir para Toronto li em muitos lugares e ouvi de muita gente que canadense não almoça. Pelo menos não fazendo grandes refeições como a gente faz no Brasil. Não chega a ser assim com todo mundo por aqui, mas a verdade é que os canadenses normalmente se contentam com um suco ou então uma salada bem simples. O almoço deles é como se fosse o nosso lanche. Não é comum ao meio dia as pessoas comerem arroz, feijão, macarrão, carnes e frango como a gente normalmente faz. Quando o almoço que ela deixava pra mim era a sobra do jantar, estava ótimo. Mas quando não era, eu geralmente tinha que me contentar com uma saladinha ou uma sopa. 

Sou viciado nesse biscoito.
Quando eu me mudei e passei a morar sozinho minha alimentação ficou péssima. Muito porque eu não sei cozinhar e não tenho talento nenhum para isso. Tive que recorrer a minha mãe, meus amigos e o Google para aprender a preparar arroz, macarrão, carnes e até cozinhar uma batata doce ou um aipim. No início era tudo terrível, uma verdadeira gororoba. Hoje eu continuo fazendo feio na cozinha, mas já não estou mais tão ruim quanto antes. Acho que o meu grande problema é a preguiça de fazer comida. Acabo fazendo de qualquer jeito quando não compro algum prato congelado no mercado, coloco no microondas e forro o estômago. Isso me deixa até com a consciência pesada porque sempre gostei de manter uma alimentação saudável de segunda a sexta-feira.

Falando em comida congelada de supermercado, é impressionante o verdadeiro vício que as pessoas daqui tem em comida industrializada, artificial. Eu sinto muita falta de uma comida mais natural, mais leve, com um tempero de verdade. Você pode encontrar de tudo pronto aqui. Lembro que uma vez na escola, durante o intervalo, uma colega coreana sacou da mochila um pacote que parecia ser de biscoito. Quando ela abriu a embalagem, era nada mais nada menos que maçã em pedaços. Pedaços estes banhados em um líquido que mais parecia água suja. Devia ser algum tipo de conserva.

Como em julho eu chego em Salvador num domingo, a semana por lá já vai começar com uma operação de guerra de desintoxicação. Mas sei que não vai ser fácil acostumar novamente com o que é bom de verdade o organismo que já está tão habituado com a comida ''de latinha'' daqui.

Feijoada brasileira! Um dos raros momentos de ''comida de verdade'' por aqui.
Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sábado, 24 de maio de 2014

O segredo é não parar de falar

Assim que abri o blog para fazer esta postagem percebi que a última havia sido feita há um mês e alguns dias. O tempo tem passado tão rápido que as vezes eu até me assusto... Fico até me perguntando como foi que o meu primeiro mês aqui em Toronto pareceu uma eternidade e, no entanto, de um tempo para cá o relógio tem dado voltas numa velocidade fora do normal. Acho que isso é porque as coisas por aqui deixaram de ser novidade e eu já não me sinto mais um estranho nessa terra que é fria mesmo em dias tão ensolarados que me fazem lembrar o céu de Salvador.

Desde o meado do mês de abril a minha rotina mudou bastante por aqui. Isso porque as minhas aulas acabaram. Como eu já falei em postagens anteriores, esse intercâmbio conta com três meses de estudo e três meses de trabalho ou WEP (Work Experience - Experiência de Trabalho). No meu segundo dia de Toronto eu já estava na escola tendo aula das 9h às 16h. A primeira aula era das 9h às 12h, a segunda das 13h às 14h30 e a terceira das 14h30 às 16h. Como no dia do teste de nivelamento eu escolhi o curso que era mais voltado para a comunicação, essa primeira aula treinava a forma de a gente se expressar para se fazer ser compreendido pelos outros colegas. As outras aulas mudavam a cada mês de acordo com a nossa escolha e orientação dos professores. Tive aulas focadas em gramática, leitura, pronúncia, vocabulário e oratória (a melhor  de todas!). 

No meu primeiro dia de aula a sensação era de que eu nunca havia estudado inglês na vida. Ou pelo menos de que nunca havia passado do nível básico nos cursos que fiz em Salvador. Há muitos anos estudei na extinta escola de idiomas UEC, que funcionava no mesmo prédio do Teatro Jorge Amado, na Pituba. Anos depois, já na faculdade, eu concluí em dois anos o curso de inglês do Núcleo de Extensão em Letras da Universidade Federal da Bahia, em Ondina. Ao chegar aqui a minha base de gramática até que era razoável, mas conversar em inglês pra mim era quase impossível. Só fui ter a dimensão do quão ruim foi passar tanto tempo sem praticar o idioma quando cheguei aqui. 

Apesar desse susto, já na primeira semana eu senti uma melhora significativa. Não tinha como não ser desse jeito já que além de um dia inteiro de aula, a canadense, dona da casa em que eu morei nos dois primeiros meses, também só falava em inglês. Toronto tem brasileiros por toda parte e é inevitável você não falar português com um que você conheça aqui. Antes de vir para cá muita gente me dizia para fugir dos brasileiros. Pra mim isso é bobagem. Conheci também muita gente de todas as partes do mundo. Colombianos, espanhóis, italianos, franceses, portugueses, eslováquios, suecos, mexicanos, irlandeses, japoneses, coreanos... E claro, canadenses.

Mesmo quando eu já estava me arriscando mais a conversar em inglês sem aquela preocupação de estar falando da maneira mais correta, os diferentes tipos de sotaque me atrapalhavam bastante. Se no Brasil a gente não consegue entender certas palavras por causa da forma como os brasileiros de diferentes regiões falam, imagine quando se trata de um idioma que a gente não domina completamente... Era muito, muito difícil. Com algumas pessoas eu conseguia conversar por horas, mas com outras até um simples ''good morning'' era difícil de se entender.

Quando as minhas aulas acabaram eu ainda quis ficar por mais tempo na escola. Pra mim o inglês só ia ficar afiado com mais algumas aulas. Mas acabei usando o tempo livre que passei a ter para, entre outras coisas, estudar gramática e vocabulário. Continuo treinando o ouvido como já fazia antes: ouvindo música em inglês e assistindo filmes e seriados ora com legenda em inglês e ora sem legenda. Não é a mesma coisa de estar em sala de aula todos os dias, mas tem sido bastante produtivo. Já a fala eu basicamente tenho treinado com alguns amigos canadenses. A ''avaliação'' deles acaba sendo um termômetro pra eu saber se estou falando bem ou não. Eu acho até que quando se trata de treinar a fala e o ouvido, o melhor mesmo é ir pra rua e falar com as pessoas em inglês. Sem medo de errar e estando aberto a ouvir correções. 

Sem nenhum exagero, esses três meses que eu levei estudando inglês em sala de aula por aqui foram mais produtivos que os anos que levei estudando em escolas de idioma em Salvador. Talvez um dos fatores para isso seja por eu não ter mais tocado em nada do idioma depois que concluí o curso por lá. A verdade é que o grande segredo é não deixar de praticar. Quando eu voltar ao Brasil vai ser mais difícil porque eu não vou achar um estrangeiro pra ficar conversando comigo em inglês, mas deixar o idioma totalmente de lado como antes, jamais!

Vista da janela da sala
Imagem: http://instagram.com/arturqzz

sábado, 19 de abril de 2014

Saio de casa pela segunda vez

Depois de exatos dois meses da minha chegada à esta cidade gelada chegou a hora de sair da homestay, a casa de família canadense. O meu programa de intercâmbio incluía apenas um mês de homestay, mas eu e meus pais achamos melhor pagar mais um mês porque eu não consegui achar um lugar pra ficar. Na verdade eu acabei deixando para procurar em cima da hora e também procurei nos sites errados, que por terem anúncios desatualizados me fizeram ligar para várias pessoas atrás de um quarto que na verdade já havia sido alugado. Uma professora me sugeriu um site que foi onde eu finalmente encontrei um canto pra mim.

Morar em casa de família foi maravilhoso! Na época eu reclamava um pouco, mas só depois que saí fui ter noção do quanto que era bom. Eu morava com Sue, uma canadense de 53 anos, e Daxi, seu gato. A minha queixa com relação à casa era o fato de ela ser um pouco fria. Até hoje não sei se o aquecedor era fraco ou se eu sou mais friorento do que imagino. Outra coisa que me incomodava um pouco era ter que avisar até às 17h (5p.m) se eu fosse dormir fora. Isso porque ela não queria começar a preparar o jantar pra mim nesse horário e depois ficar sabendo que eu não ia mais comer em casa. Compreensível... Outro ponto que pesava muito pra mim era a distância do centro da cidade. Todos os dias eu levava 45min para chegar à escola. Fora isso o apartamento é bastante confortável e eu tinha uma relação muito boa com a Sue. No dia do meu aniversário ela me surpreendeu com um cartão, um presente e um cupcake que me esperavam na cozinha de manhã cedo. Parece besteira, mas isso me deixou feliz. Ser lembrado em um lugar em que eu sou um estranho, um gringo, é muito bom.

Saí da homestay o dia 23 de março e fiquei na casa de um amigo até o dia primeiro de abril porque essa foi a data acordada com o dono da casa nova. Moram comigo um canadense, um irlandês e um nigeriano. Cada um tem o seu quarto. Com eles eu compartilho a cozinha e o banheiro. A gente quase não se vê porque cada um sai ou chega de casa em horários diferentes. Cada um tem a chave do seu armário da cozinha e do banheiro. Na despensa e na geladeira cada um fica com uma prateleira. Tudo separado e bem organizado. A casa não é tão confortável quanto a homestay, mas é mais quente e fica a 15min do centro da cidade. Ah, na porta de casa tem um bonde 24h. Isso é ótimo!

Temos algumas regras por aqui. Não podemos trazer gente de fora para dentro da casa em hipótese alguma, não podemos tomar banho depois das 22h (10p.m), não podemos fazer barulho na cozinha antes das 6h (6a.m) e depois das 21h (9p.m), a pia da cozinha não pode ter pratos sujos e o banheiro deve estar sempre limpo. No início algumas dessas determinações me incomodavam, mas hoje eu já me acostumei e até gosto. Nada como o tempo...

Ao chegar na casa nova a primeira coisa que eu fiz foi desarrumar a minha mala. Depois fui fazer mercado. Levei duas horas para poder comprar tudo o que eu precisava ou achava que precisava. Mesmo com uma lista no celular eu demorei porque não sabia exatamente onde certos produtos ficavam e porque ao andar pelos corredores do mercado eu lembrava de alguma coisa que não estava na lista. Acabei gastando quase C$ 100 com as compras. Comprei muita coisa em grande quantidade sem necessidade. Muitos produtos passaram da validade por conta desse exagero.

Acabei esquecendo de citar aqui que a comida da minha homestay era maravilhosa! A Sue é uma super cozinheira. Já eu agora cozinho pra mim sem ter noção nenhuma de culinária. Faço macarrão, frango e batata doce quase todo dia. Confesso que a preguiça as vezes me impede de aprender coisas novas. Mas vou retomar as minhas ''aulas'' o quanto antes porque preciso mudar meu cardápio. Mas uma coisa que eu sei fazer bem e que adoro é brigadeiro. Sim, eu sei que é fácil. Sou louco por chocolate! Uma vez fiz um para um amigo canadense porque descobri que brigadeiro é um doce brasileiro. Mas o resultado foi péssimo. Como achei muito desaforo eu não acertar fazer um doce tão simples, uma semana depois fiz de novo e aí sim voilà! Ficou maravilhoso!

O site em que eu achei a casa que estou morando hoje, citado no início do texto, é o Viewit.Ca.

sábado, 1 de março de 2014

Sobre a saudade

Com a viagem marcada para o dia 25 de janeiro, um sábado, foi justamente no início dessa semana que eu comecei a sentir o quanto que Salvador ia me fazer falta. Como tive que andar muito pela cidade para resolver alguns problemas que eu não ia poder resolver à distância, eu ia observando atentamente cada pedacinho de Salvador. Era como se eu quisesse lembrar perfeitamente de tudo enquanto estivesse fora. Como se fosse possível esquecer em seis meses do lugar onde eu vivi a vida inteira.

Marquei uma reunião com amigos e família para a véspera da viagem, na sexta-feira, mas durante a semana fui encontrando os amigos que não iam poder comparecer. E no dia anterior, na quinta, fui com outros amigos a um ensaio de verão de Margareth Menezes. Como sou completamente apaixonado por samba-reggae, aquele dia foi bastante especial porque era o último show que eu ia assistir na cidade antes de viajar. E para tornar a noite ainda mais especial, Margareth ainda ia contar com a participação de Daniela Mercury e do Olodum. Ou seja, um banho de baianidade perfeito, tudo que eu precisava. Em alguns momentos quando eu ouvia alguma canção muito marcante do carnaval eu me emocionava, ficava bastante arrepiado. Acho o carnaval uma festa sensacional, apesar de não ir pra rua todo ano. É um momento mágico em que a cidade exubera. 

No final da despedida, na sexta-feira, quando os primeiros amigos começaram a ir embora eu chorei como nunca havia chorado antes em público. Sou chorão, mas é muito difícil eu fazer isso na frente das pessoas. Chorei, chorei muito! Na despedida, arrumando as malas, no aeroporto, no embarque e dentro do avião cheguei a soluçar que nem criança. Só me forcei a parar quando comecei a sentir cãibra na garganta.

Durante a primeira semana em Toronto tudo era tão novo que eu acabava não tendo muito tempo de pensar na falta que tudo e todos estavam me fazendo. Mas do primeiro fim de semana em diante eu comecei a sentir uma tristeza muito grande. Sentia falta de tudo, me senti sozinho, perdido e até com receio de ter que ficar nesse lugar tão novo pra mim em todos os sentidos por um semestre. Não tinha motivação pra conhecer a cidade, pra conhecer gente, pra estudar... Nada.

Em mais ou menos quinze dias eu comecei a acordar e perceber o quanto que eu estava perdendo ao me deixar levar por aquela energia tão negativa. Mergulhei nos estudos, comecei a sair mais com amigos ou até sozinho, comecei a malhar e a ocupar a cabeça. Hoje estou encantado com essa experiência toda, mas confesso que ainda conto as semanas para voltar. O calendário fica em uma parede em frente a minha cama. Acordo e vou dormir olhando pra ele.

Viver aqui tem sido bastante enriquecedor do ponto de vista profissional porque eu estou ganhando uma fluência no inglês que eu acredito não ser possível ganhar fazendo cursos em Salvador. Mas sobretudo, o mais interessante tem sido me pegar tendo outra dimensão do mundo e das pessoas que fazem parte da minha vida. Ando até me conhecendo melhor. Precisei sair do país pra ser apresentado a mim mesmo. Acho que isso na verdade tem sido um ganho de maturidade. Cheguei aqui de um jeito, hoje, um mês e alguns dias depois, me sinto um pouco diferente (as vezes até estranho...) e com certeza no final disso tudo estarei mais diferente (ou mais estranho. rs) ainda. 


Imagens: http://instagram.com/arturqzz




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O significado da palavra frio

Meses antes de comprar as passagens muita gente já me alertava quanto ao frio de Toronto nesse período de início de ano, em especial neste inverno que tem sido o mais rigoroso das últimas décadas por aqui. Mesmo tendo uma vaga noção do que iria encontrar, eu só fui comprar roupa de frio na semana da viagem. Coloquei na mala alguns suetérs e dois casacos bem grossos. Não comprei muita coisa porque no Canadá roupa de inverno é muito mais barata que no Brasil. Sem falar que um casaco de frio que é vendido em Salvador dificilmente vai ser ideal para o frio típico de um inverno canadense.

Cheguei de manhã ao aeroporto Aeroporto Internacional Pearson de Toronto em uma viagem cansativa que levou dez horas partindo do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Estava usando uma camisa, suéter, casaco, luvas de tecido, calça jeans, tênis e duas meias em cada pé. Rafael, meu amigo que mora aqui com a esposa Bebel, foi me buscar. Enquanto estava lá dentro ainda não tinha sentido o tal frio de Toronto. Achei até estranho... Mas lembrei que todos os lugares da cidade tem aquecedores. Para chegar à casa dele, antes de ir para a minha homestay, tínhamos que pegar dois ônibus e um metrô. No curto espaço de tempo que levamos no ponto e na estação, e depois andando até chegar ao prédio, a sensação que eu tive foi de DESESPERO (sim, desespero em caixa alta!).

Em segundos senti um frio que eu nunca havia sentido antes. Ou melhor dizendo, não senti! Era tanto frio que em pouco tempo eu perdi totalmente a sensibilidade nos pés, mãos, nariz, boca e orelhas. Eu definitivamente não estava bem agasalhado e paguei um preço alto, em todos os sentidos, por subestimar o frio. Achei que os 10º que peguei há alguns anos em uma viagem à cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, tinha me dado uma noção dos -19º com sensação térmica de -31º que me esperavam. 

Depois de chegar ao apartamento dele, mesmo com o aquecedor ligado eu continuei sentindo um frio absurdo por um tempo. Tomamos café da manhã e fui logo com Bebel comprar algumas ''armas'' que iriam me proteger daquela guerra contra o frio. Compramos um casaco, bota e um gorro. O capuz do casaco tem um revestimento na borda que lembra pelúcia. Esse detalhe a princípio não me agradou, mas depois percebi que ele é importante para barrar a neve que cai no rosto. E a bota também é essencial porque a neve faz com que o chão vire uma espécie de areia fofa e escorregadia. 

Nos outros dias eu fui comprando mais coisas para me proteger. Comprei luva de couro, cachecol e protetor de orelha. Depois de uma semana eu comprei uma camisa e uma calça térmica, a chamada segunda pele, que é ótima para manter a temperatura normal do corpo e fazer com que o frio não incomode tanto. Acho que com tudo isso eu gastei algo em torno de uns C$ 250. 

Mas nem tudo é ruim nesse frio todo. O primeiro impacto é terrível, mas com o tempo a gente vai se acostumando, se adaptando. Hoje em dia quando os termômetros registram algo em torno de -10º, -2º, 0º, o dia está bom. Dá até pra dizer que está mais ''quente''. Vale destacar que o que faz o frio ficar insuportável na verdade é o vento. O corpo e principalmente a cabeça chegam a doer quando a gente anda nas ruas daqui e de repente sentimos um vento mais forte.

No meu primeiro dia na cidade mais populosa do Canadá vi neve pela primeira vez na vida! Foi enquanto andava à procura de casaco. A princípio não achei interessante porque a vontade de me aquecer logo não me deixava pensar em mais nada. Por sinal, ao sair da casa de meu amigo para ir à minha homestay eu acabei me perdendo. Com frio, carregando uma mala pesada, e ainda exausto, a neve só fazia me atrapalhar. 

Dias depois fui me deparando com neve caindo enquanto eu andava nas ruas ou então batendo na janela da casa onde estou morando. Apesar de neve significar frio e um verdadeiro malabarismo para andar na rua sem cair, tenho que admitir que ela é linda e deixa a cidade com um charme todo especial.

Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Canadá!

Depois de muito tempo estou de volta a este espaço e espero não demorar mais tanto para escrever aqui. A vontade de postar já era antiga, mas neste último ano estive dividido entre a reta final da faculdade (agora sou jornalista com diploma!), o estágio na rádio e alguns cursos que eu fiz no pouco tempo que me sobrava durante a semana. Nos últimos meses de 2013 eu também comecei a me preparar para um intercâmbio na cidade de Toronto, no Canadá.

Comecei pensar na viagem ainda nos primeiros semestres da faculdade. Já fazia curso de inglês em Salvador, mas achava que nada seria tão interessante para aprender o idioma quanto um intercâmbio em um país de língua inglesa. A escolha pelo Canadá a principio foi por ser um lugar mais barato e onde eu ia ter a possibilidade de ter visto de estudo e trabalho. O que também influenciou a minha escolha foi o fato de eu ter um grande amigo morando aqui com a esposa há quase três anos.

Dei entrada em todo o processo no inicio do ano passado através uma empresa chamada BEX. Agora não consigo lembrar exatamente o valor do pacote que inclui três meses de estudo em uma escola de línguas, três meses de trabalho e um mês de acomodação em uma homestay (casa de família). Se não me engano, foi algo em torno de C$ 7.000 e C$ 10.000. Todo o valor deveria ser pago até 30 dias antes da viagem. O que surgiu de extra no orçamento foi o plano de saúde, as passagens de ida e volta e a taxa de visto canadense.

A partir dessa postagem vou voltar aqui para escrever mais sobre frio, comida, estudo, trabalho e as minhas experiências e impressões da cidade. Vou tentar ficar longe daqui quando estiver sentindo muita saudade da Bahia pra não transformar esse espaço em um diário recheado de melancolia e sentimentos à flor da pele. A foto abaixo é da entrada/saída do Aeroporto Internacional Luís Eduardo Magalhães, em Salvador.

Imagem: http://instagram.com/arturqzz