sábado, 12 de julho de 2014

''Tempo rei''

Distillery District
Engraçado como o tempo faz verdadeiros milagres na vida da gente, na nossa cabeça e no nosso coração. Há exatos cinco meses e dezesseis dias eu desembarquei em Toronto para dar início a um intercâmbio. Sou jovem, tenho 22 anos, e havia acabado de concluir a minha graduação. Ou seja, como muita gente me disse antes da viagem, eu escolhi a época certa para viver essa experiência. Já pensava em fazer intercâmbio antes mesmo de entrar na faculdade. Ao longo do tempo fui conversando sobre a ideia com meus pais e aí com cerca de um ano de antecedência comecei de fato a me preparar para a viagem.

Até então eu nunca tinha ficado mais de quinze dias longe de casa ou feito uma viagem internacional. Como a vida inteira ouvi de muita gente que eu era maduro e que tinha uma cabeça de uma pessoa mais velha, cheguei a ter a pretensão de imaginar que ficar longe de tudo por esse tempo não seria um grande desafio pra mim. Doce ilusão... No meu primeiro dia em Toronto a sensação de solidão me apavorou e fez com que eu me sentisse um grão de areia, além da impressão de que esses quase seis meses de intercâmbio seriam uma eternidade.

Sair da cidade onde sempre vivi para chegar em uma outra tão diferente, e na época tão fria, era encantador mas ao mesmo tempo me assustava. Não há nada em Toronto que faça referência a qualquer lugar do Brasil. É uma realidade completamente diferente. Mas o mais complicado mesmo foi perceber que o contato mais próximo que eu conseguiria ter com a minha família e com os meus amigos seria via Skype. A mudança foi muito brusca pra mim. Poucas semanas antes de viajar eu estava preparando a apresentação do meu trabalho de conclusão de curso pela manhã, trabalhando à tarde, fazendo um curso à noite, vendo minha família todos os dias e os meus amigos em todos os finais de semana. Sem falar que eu saí do Brasil no final de janeiro, auge do verão.

Tudo naquela terra até então nova me parecia muito estranho o tempo todo. Fora um amigo meu que mora em Toronto há alguns anos, eu não conhecia mais ninguém na cidade. Não sabia andar nas ruas, tinha que olhar o mapa pra poder pegar o ônibus certo pra voltar pra casa, morava com uma pessoa que eu nunca tinha visto na vida, não ouvia português em lugar nenhum e ainda tentava trabalhar a minha cabeça para não pirar em meio a aquele frio que não passava.

Eu costumo dizer que levei cerca de 15 dias para chegar em Toronto. Isso porque nessas duas primeiras semanas eu não tinha vontade de fazer nada. A tristeza e a saudade eram muito grandes. Cheguei até a achar que ficar longe até julho era demais, desnecessário.

Passada essa fase de tristeza e melancolia, Toronto foi pouco a pouco me ganhando. Fui começando a conhecer a cidade, conhecer gente, a me apegar e a me apaixonar por aquela nova realidade. Foi uma paixão que surgiu tão avassaladora que assim que eu completei dois meses de intercâmbio conversei com meus pais sobre a possibilidade de ficar mais tempo. Queria ficar mais seis meses pra poder fechar um ano de intercâmbio. Estudamos todas as possibilidades, mas não deu. Fiquei e ainda estou muito sentido, mas não triste porque viajei à princípio com o pensamento de ficar até julho. Antes mesmo de sair de Salvador eu já sabia que se resolvesse ficar mais tempo fora, essa seria uma possibilidade remota.

Acho que o que mais vai me fazer sentir falta de Toronto é a liberdade e a sensação de segurança. Não tem coisa melhor do que você viver em um país extremamente civilizado como é o Canadá. Fora o fato de não haver grandes problemas com criminalidade e mobilidade urbana. Qualquer um se encantaria. 

Ainda não sei dizer o que foi melhor nessa experiência toda. Vivi tanta coisa por aqui. A sensação é de que vivi vários anos em um só. Cheguei aqui de um jeito e saio de outro. A melhora no inglês pra mim foi o mínimo que eu pude ganhar. Acho que o melhor mesmo foi o amadurecimento. Hoje eu me conheço muito mais do que antes. Eu olho pro meu umbigo e percebo claramente quais são os meus maiores defeitos e as minhas maiores qualidades. Hoje me vejo com mais certeza da importância que muita gente tem na minha vida. Sem falar que, como já disse em outra postagem, passei a olhar o espelho de forma diferente. Precisei ficar tão longe, por tanto tempo, vivendo uma vida tão diferente da que eu sempre tive para poder me conhecer, me enxergar e ter certeza de quem eu sou de verdade, do que eu quero pra mim e do que me faz bem. Abri minha cabeça pro mundo. Me sinto mais corajoso e menos ansioso. Meus sonhos se tornaram mais claros pra mim porque aprendi a andar com os pés mais firmes no chão.

A tarefa agora é começar e recomeçar a vida no meu país. Continuo querendo muita coisa e espero que esse segundo semestre seja tão ou mais valioso do que já foi o primeiro. Mas independente disso, 2014 definitivamente já se tornou o melhor ano da minha vida. E essa experiência é sem dúvida a mais linda e intensa que eu já tive.

Imagens: http://instagram.com/arturqzz

3 comentários:

  1. Já pensou em transformar a experiência em livro? Daria uma interessante história! Sua narrativa é boa e prende o leitor. Tenho até uma sugestão de título: "Toronto: como foi e como é". Kkkkkkk!

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    1. Ainda não tinha pensado nisso, Raulino. Mas obrigado pela sugestão! Vou pensar... rs

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