sexta-feira, 27 de junho de 2014

O canadense

A gente sempre ouve dizer que o Brasil tem a fama de ter um povo hospitaleiro, simpático e que sabe receber bem o turista. Com todos os holofotes do planeta voltados para o país em função da Copa, essa imagem foi reforçada para o mundo inteiro. Basta assistir a qualquer vídeo na internet que apresenta o país ou as cidades sede dos jogos que dá pra perceber claramente que essa energia do brasileiro é apresentada quase que como mais uma atração turística. Não sei como são os outros povos ao redor do mundo, mas desde o meu primeiro dia em Toronto já pude sentir o quanto que o canadense é educado, solícito e agradável.

Ao desembarcar fiquei sem saber para que lado ia porque o aeroporto internacional de Toronto é muito grande. Quase um labirinto. Meu amigo acabou demorando um pouco para ir me buscar. Até saber do paradeiro dele eu pedi informação sobre a saída do aeroporto a alguns funcionários que me trataram muito bem. E olhe que nessa época eu falava muito pouco em inglês. Depois fui pedir informação a uma mulher que havia chegado ao aeroporto e aí no meio da conversa ela ofereceu o seu celular para que eu pudesse enviar uma mensagem a esse meu amigo que ainda não havia chegado. Foi uma primeira impressão muito boa que eu tive dos canadenses só nesse primeiro momento ao chegar em Toronto.

Como eu já disse em outras postagens, me perdi muitas vezes andando pelas ruas da cidade. Em todas essas situações, que vez ou outra ainda se repetem, eu acabava indo pedir informação às pessoas. Sempre me orientavam muito bem. Uma vez ao sair de um shopping eu errei o caminho para a estação de metrô. Já era noite e nevava bastante. Eu estava carregando sacolas e morrendo de frio. Pedi ajuda a um casal e eles foram tão gentis que praticamente me levaram até a entrada da estação para ter certeza de que eu não viria a me perder novamente.

Engraçado que antes de vir para cá, quando alguém se aproximava de mim para pedir uma informação a primeira reação que eu tinha era de susto. Aqui quando você se aproxima de alguém para perguntar algo, basta começar com um pedido de licença que a pessoa te dá toda a atenção do mundo. E o melhor, essa atenção vem acompanhada de simpatia.

Com o tempo eu fui aprendendo por aqui algumas regras básicas de convivência. Por exemplo, aqui as pessoas não tem o hábito de se cumprimentarem com beijo no rosto e/ou abraço. Normalmente fica apenas em um aceno ou um balançar de cabeça com um sorriso. Abraço é só quando há muita intimidade. Muito canadense cumprimenta com abraço, mas na dúvida eu prefiro sempre optar por um aperto de mão. Mas se eu vejo que a pessoa faz menção a um abraço, lógico que eu não recuso. Inclusive, no começo eu até senti um pouco de falta dessa coisa que a gente tem de se tocar ao se cumprimentar para dizer um ''olá'' ou um ''até logo''. Somos mais afetivos nesse sentido.

Lembro que no dia do meu aniversário, quando a minha ''mãe'' me desejou parabéns, me deu um bolo e um presente, eu fiquei numa dúvida cruel se deveria ou não dar um abraço. Nessa dúvida eu preferi apenas agradecer bastante. Um tempo depois ouvi de um amigo canadense que nesse caso eu podia ter dado um abraço. rs

Outras regras básicas por aqui são: tirar os sapatos ao entrar na casa das pessoas; sempre dar gorjeta; sempre deixar o lado esquerdo da escada rolante livre (muita gente não sabe, mas isso é regra em qualquer lugar! Ou deveria ser...); só entrar nos veículos de transporte público após as pessoas que pediram o ponto saírem; sempre sinalizar no bonde ou no ônibus que você deseja descer na próxima parada; não demorar no banho por mais que com o tempo frio a água quente esteja irresistível; pontualidade (sempre!); não falar o seu idioma de origem em uma roda de amigos em que tenha gente que não entenda, ainda que dez falem português e só um fale inglês; e para quem mora em homestay é de bom tom jantar com a família; ainda em homestay, não pega bem usar o celular à mesa.

Não vou citar os pontos ruins porque acho que não vai ser legal. Mas nem tudo são flores, afinal, gente mal educada e ignorante existe em qualquer lugar.

Namoro

Algumas pessoas já me perguntaram quanto a dar início a relacionamento com gente de fora em meio a um intercâmbio. Bom, acho bobagem viajar pensando em ter essa experiência. Quando as coisas acontecem naturalmente tudo é muito melhor. Pra mim, desde que a pessoa não esqueça de que saiu do seu país para viver por alguns meses fora tendo como foco os estudos, tudo é permitido. Inclusive, por se tratar de um relacionamento entre pessoas que tem culturas completamente diferentes, as coisas se tornam ainda mais interessantes. Uma das boas consequências disso é que o inglês acaba tendo uma melhora muito grande. O que não pode é querer fantasiar demais a eternidade da relação. Isso porque ela já começa tendo um prazo máximo para acabar. Ou talvez não, caso você queira jogar tudo para o alto em nome do sentimento que surgiu disso tudo. rs. Quem sabe...

Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sábado, 14 de junho de 2014

O medo de andar na rua não veio na mala

Em uma das minhas últimas semanas em Salvador tive o desprazer de presenciar dois assaltos em pleno trânsito. No primeiro duas meninas foram assaltadas no mesmo ônibus em que eu estava. No segundo o marginal arrombou o vidro de um carro que estava parado em um engarrafamento. Da janela do ônibus eu vi tudo acontecer. Quem já foi assaltado ou já viu um acontecer sabe que a sensação é de medo, depois impotência e por último revolta. Não gosto de ficar aqui comparando Toronto a Salvador porque minha intenção nessas postagens nunca foi essa. Mas, como qualquer jovem que cresce em uma grande cidade brasileira, passei a vida inteira ouvindo que por estar vulnerável a uma situação dessas eu devo ter cuidado ao andar na rua, dirigir, ir ao banco etc. Me acostumar com a atmosfera de segurança canadense chegou a ser engraçado justamente por causa dessas defesas. 

O Canadá é o país que conta com uma das taxas mais baixas de homicídios por número de habitantes de toda a América, segundo estudos de 2012 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC). Pude ter a noção disso com poucas semanas vivendo por aqui. As pessoas andam em qualquer lugar completamente despreocupadas. Não hesitam em atender o celular em uma avenida movimentada ou em uma rua deserta, usar o tablet em pleno ponto de ônibus ou o notebook no metrô. Até o fone de ouvido as pessoas usam conectados ao celular com o fio por fora da roupa.

Na primeira vez que eu saí à noite, voltei sozinho e de madrugada. Isso ainda sem conhecer muito da cidade. Confesso que à primeira vista a sensação de andar só em uma rua deserta não foi nem um pouco agradável. Mas lá pela segunda ou terceira vez eu já estava mais tranquilo. Fui me acostumando e aí o medo e o receio foram embora. Claro que vez ou outra surge aquela desconfiança de algum lugar ou de alguém, mas a cidade tem um clima de paz tão grande que você acaba ficando naturalmente tranquilo. Os policiais daqui, por sinal, são super educados, solícitos e de fato fazem você se sentir ainda mais seguro na presença deles.

Muro e grade são coisas que eu quase não não vejo por aqui. A maioria das casas e até prédios tem no máximo, e quando tem, apenas um cercado que é muito mais por decoração, proteção do jardim e delimitação do terreno do que por qualquer outra coisa. E a primeira porta da casa normalmente já é a que dá na da sala.

Quando eu estava procurando uma casa para morar aqui pós período de homestay, cheguei a encontrar um apartamento com um preço bom, mas em uma região bem afastada do centro da cidade. Amigos, conhecidos e até professores me aconselharam a não ir pra lá porque se tratava da área mais perigosa da cidade. Mas ninguém sabia explicar ao certo qual é o perigo. Eu cheguei a visitar o apartamento e achei a vizinhança aparentemente normal. Um tempo depois eu fui descobrir que a área não é muito recomendada porque algumas gangues esporadicamente iam ao local para trocar ofensas e brigar. Só que esses confrontos muitas vezes acabavam em gente baleada. Mas como disse uma professora minha e eu infelizmente tive que concordar: - não chega a ser tão perigoso quanto uma favela do Rio de Janeiro!

Apesar de o sistema de segurança ser eficiente e de os índices de criminalidade serem baixos, isso não significa que a gente pode sair por aí dando ''sorte ao azar''. Ter cautela é sempre bom. Eu ainda não conheci uma pessoa que já tenha sido assaltada ou sofrido um sequestro relâmpago em Toronto. Quando eu ou qualquer outro brasileiro comenta com algum gringo do quanto isso é comum no Brasil, eles ficam apavorados. E com razão. Eu mesmo já fui assaltado quatro vezes em Salvador. E não faço ideia de quantos amigos meus já passaram por este tipo de experiência. É tão frequente que chega a cair na banalização. E nós somos tão conformados que muitas vezes colocamos a culpa na própria vitima por estar com o celular ou a carteira muito evidentes no bolso da calça, ou a corrente no pescoço, o fone de ouvido...

Suicídio

Mesmo sendo um país maravilhoso os índices de suicídio por aqui são estranhamente altos. Maiores que os do Brasil. Teve época em que quase toda semana eu ouvia alguém falar sobre um caso desses. Um amigo canadense recentemente viu uma mulher caindo de um prédio. Horas mais tarde ele ficou sabendo que se tratava de mais um caso de suicídio. Andei lendo sobre o assunto e vi que há um estudo que aponta que países considerados felizes normalmente tem uma quantidade maior de casos dessa espécie porque para a pessoa que pensa em atentar contra a própria vida, viver em um lugar ''perfeito'', que praticamente respira felicidade, aumenta o sentimento de tristeza e depressão. Quem se interessar pelo assunto pode dar uma olhada aqui e aqui.

Imagens: http://instagram.com/arturqzz

sábado, 7 de junho de 2014

Caminho de casa e caminho de me perder

Eu já nem lembro quantas vezes me perdi andando pelas ruas de Toronto. Só na primeira semana foram umas quatro vezes. Lembro que uma vez eu tinha ido a um shopping perto da escola, mas na hora de voltar acabei entrando em uma rua errada e aí de repente eu não fazia a menor ideia de onde estava. Isso sem falar no dia em que eu cheguei aqui e me perdi porque fui pro ponto de ônibus errado. O detalhe é que isso tudo aconteceu quando ainda nevava muito e o frio era insuportável. No fim das contas foi bom porque me fez criar o hábito de andar mais atento a pontos de referência. Mas o que me ajudou mesmo foram os mapas das estações de metrô. Hoje em dia é muito raro eu me perder por aqui. E quando isso acontece, eu entro em uma estação e facilmente consigo me situar.

Os canadenses reclamam muito do sistema de transporte daqui, mas pra mim é tudo ótimo. No transporte público você tem a opção de andar de metrô, bonde ou de ônibus. Em todos os pontos de ônibus ou nas estações de metrô há sempre uma tabela ou uma TV que informa qual o horário da próxima partida. Lógico que é apenas uma estimativa, mas normalmente a diferença é de no máximo dois minutos. Dá até pra arriscar chegar nos pontos em cima da hora. 

O transporte público daqui é tão eficiente que você vê poucos carros na rua. Os canadenses não vêem tanta necessidade de ter um veículo casa. Muitos tem o seu próprio carro, mas é comum você encontrar quem só tire o veículo da garagem nos fins de semana ou nos feriados. E como não há tantos carros na rua também não há engarrafamentos. Apenas em horários de pico você chega a ver algo que de lembre vagamente um congestionamento, mas nem de longe se compara às horas que motoristas e passageiros gastam parados em grandes cidades do Brasil.

O valor da passagem aqui é C$ 3,00, mas há um cartão que te dá direito a usar quantas vezes quiser os veículos de transporte público por aqui mensalmente (C$ 133,75) ou semanalmente (C$ 39,25). Nas estações de metrô é preciso passar esse cartão em uma catraca, mas nos ônibus e nos bondes você deve mostrar ele ao motorista. Muitos motoristas sequer olham para o cartão. Porém, quando alguém entra sem cumprir esse ritual eles param o veículo até que a pessoa pague a passagem ou apresente o cartão ou desça. 

Outra coisa interessante por aqui são os blue nights, que são os ônibus e bondes que rodam de madrugada. Eles passam em um intervalo maior. Cerca de 20 a 30 minutos entre uma partida e outra. Mas é uma boa opção para quem precisa ou quer voltar mais tarde pra casa. Os pontos que contam com esse serviço são sinalizados. Já o metrô, faça chuva ou faça sol, só funciona até à 1h40.

Coluna de uma estação de metrô
No meu segundo mês de vida canadense, eu ainda não sabia que nem todos os pontos contavam com esse serviço 24h e aí quase passei por um apuro. Saí da casa de um amigo à meia noite e só fui chegar na estação onde eu ia ter que pegar o ônibus que me deixava em casa à 0h40. Como o meu ônibus estava demorando mais que o normal para passar, resolvi dar uma olhada na tabela e vi que o último havia passado às 22h30. Um susto! Resolvi tentar ir andando, mas desisti depois de andar poucos metros porque além do frio, começou a cair uma tempestade de neve na cidade. À 1h30 resolvi entrar novamente no metrô (faltando dez minutos para o serviço parar) e ir para a estação anterior à que eu estava. Lá eu descobri um ônibus que ia passar em poucos minutos, mas que ia me deixar a um quarteirão da minha casa. Ufa!

Hoje já não tenho mais esse problema porque na casa em que estou morando há um bonde 24h com ponto na entrada da minha rua. A depender de onde eu vá, muitas vezes prefiro voltar andando mesmo de madrugada. Não, não tem perigo! E é sobre isso que eu vou falar na próxima postagem.

Imagens: http://instagram.com/arturqzz